No Porto de Santos, tem ocorrência que a Polícia Federal
e a Polícia Civil até disputam para registrar. E tem aquelas que nenhuma
autoridade quer assumir.
No início da década de 2010, os armazéns 8 e 9 — hoje já
demolidos — estavam em completo estado de abandono.
Os furtos eram constantes. A fiação elétrica
era levada com tanta acabava deixando a avenida às escuras e até os semáforos
fora de frequência que, toda semana, o setor elétrico da Companhia Docas
precisava ser acionado para fazer a reposição. Muitas vezes, a falta de energia
funcionamento.
Certo dia, quando cheguei ao plantão, encontrei
sobre a mesa um memorando interno cobrando todos
os inspetores pelos furtos frequentes e exigindo uma atuação mais dura para
acabar com aquilo.
Na mesma hora repassei a ordem para o inspetor da
área e às equipes de ronda: vigilância
redobrada.
Também orientei os operadores do monitoramento para
ficarem de olho em qualquer movimentação naqueles armazéns.
Não passou nem uma hora e o operador Aureliano me
chamou:
— Inspetor, tem um elemento invadindo o Armazém 8
agora.
Peguei o rádio imediatamente:
— Atenção, atenção, Ronda Geral. Elemento suspeito no
interior do Armazém 8.
Na viatura estavam Santos, motorista da ronda, e
Silvestre.
Santos era um sujeito de quase dois metros de altura e
uma
largura que parecia chegar perto disso. Daí o apelido: Sombra.
O parceiro dele era o Silvestre, conhecido como
“Stallone”, porque era quase um sósia do Rambo — personagem dos famosos filmes
de Hollywood.
Poucos minutos depois veio, a resposta pelo rádio:
— Inspetor, tá na mão. Elemento detido com uns cinco
metros de fio de cobre.
E logo completou:
— É um morador de rua, tá todo sujo de graxa. O que a
gente faz agora, chefe?
Veio a preocupação prática:
— Vai sujar a viatura toda. O homem tá fedendo.
Respondi:
— Depois mandamos a viatura para lavar. O que não dá
é continuar tomando cobrança por causa desses furtos.
— Encaminha o detido para a delegacia do porto, a
Deatur (5ª Delegacia de Atendimento ao Turista, responsável pelo registro das
ocorrências na área portuária).
Quase uma hora depois, ainda esperando
atendimento, o Silvestre chamou pelo rádio:
— A delegada mandou levar pro NEPOM
(Núcleo Especial de Polícia Marítima). Disse que
isso é caso da Polícia Federal.
— Ok.
Lá foram eles.
Depois de mais um bom tempo de espera, uma nova
chamada no rádio:
— Aqui no NEPOM mandaram voltar pra DEATUR. Disseram que, como o furto foi no armazém, o registro é
da Polícia Civil.
Pouco depois, nova chamada:
— Agora mandaram levar pra sede da Polícia Federal,
no centro. Falaram que o furto foi na área federal.
A essa altura, a ocorrência já estava mais rodada que
catraca
de ônibus.
Depois de outra canseira na porta da delegacia, o
Silvestre chamou novamente:
— O delegado tá perguntando se o senhor quer mesmo
que ele prenda o sujeito desse jeito.
Respondi:
— Não é questão de eu querer. É flagrante e furto
continuado. Estamos sendo cobrados pela chefia.
Silvestre respondeu:
— Ele quer falar contigo pessoalmente antes de
registrar.
Falei:
— O que ele quer? Tá querendo que eu dê um banho no
sujeito?
Em seguida completei:
— Quem prende apresenta a ocorrência. Não precisa que
eu vá até aí.
Minutos depois meu celular tocou.
Era o Silvestre, já num tom mais sério:
— Carvalhal, é melhor você vir aqui. Ele tá “P...” da
vida.
— O delegado disse que, se fizer o flagrante, vai
indiciar a gente por agressão e cárcere privado.
Na hora perguntei:
— Como assim? O que vocês fizeram?
— A gente não fez nada…
Foi então que veio
a bomba:
Foi então que veio a bomba: outro guarda que não
participava da ocorrência, teve um momento com o detido e fez valer sua
alcunha.
— O Alma Sebosa passou no NEPOM quando a gente tava
lá e deu um apavoro no vagabundo dentro da viatura.
O Germano, que trabalhava em Vicente de Carvalho, na
outra margem do porto, famoso pelo modo delicado que tratava os malandros, tinha
vindo a Santos para a troca de viatura. Na volta, depois de ouvir a troca de
mensagens no rádio, decidiu deixar a sua marca lá.
— O delegado disse que tem as imagens.
Na hora soltei:
— Depois de horas com a ocorrência rodando, só agora
vocês me contam isso?
No fundo, eu já sabia desde o começo que o delegado
não queria registrar o flagrante. Ele queria que eu pedisse
para ele não registrar.
Quando cheguei, ele veio com ironia:
— Então, inspetor Carvalhal, o senhor está exigindo
que eu registre o flagrante desse morador de rua, sujo e fedendo?
E completou, com aquele sorriso de canto de boca:
— Não tem problema. Mas também vou indiciar os seus
guardas.
O tom era puro deboche.
Na hora, me lembrei dos velhos jogos de truco dos
tempos de AVR, nos plantões da Receita Federal, e resolvi blefar com sutileza.
Respondi:
— Doutor, a autoridade aqui não sou eu. Cabe ao
senhor decidir o melhor a ser feito. Não estou exigindo nada. Tenho certeza de
que sua decisão será a mais adequada para a situação.
Na mesma hora, a expressão dele mudou.
As sobrancelhas subiram, o sorriso sumiu.
Parecia que tinha saído de um churrasco direto para
um velório.
Ele respirou fundo e disse:
— Pode ir embora, inspetor. Eu vou tomar as
providências necessárias.
Saí da delegacia.
Os guardas e o detido ficaram por lá, aguardando a
decisão do delegado.
Meia hora depois, Silvestre me ligou:
— Inspetor, o delegado dispensou a gente.
E completou:
— Depois que o senhor saiu, ele ficou andando de um
lado pro outro. Aí mandou a gente deixar o vagabundo lá e ir embora.
O flagrante não foi registrado.
Mas, curiosamente, os furtos da fiação de cobre
naqueles armazéns pararam dali em diante.
Até hoje não se sabe se foi o apavoro
do Alma Sebosa ou a atitude do delegado que resolveu o problema.
Moral da história:
quando ninguém quer assumir a própria responsabilidade e empurra para você a solução, tem que
ter muita astúcia para que o problema não acabe nas suas costas.
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