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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

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CASOS DO CAIS: O PRESO QUE NINGUÉM QUERIA


No Porto de Santos, tem ocorrência que a Polícia Federal e a Polícia Civil até disputam para registrar. E tem aquelas que nenhuma autoridade quer assumir.

No início da década de 2010, os armazéns 8 e 9 — hoje já demolidos — estavam em completo estado de abandono.

Os furtos eram constantes. A fiação elétrica era levada com tanta acabava deixando a avenida às escuras e até os semáforos fora de frequência que, toda semana, o setor elétrico da Companhia Docas precisava ser acionado para fazer a reposição. Muitas vezes, a falta de energia funcionamento.

Certo dia, quando cheguei ao plantão, encontrei sobre a mesa um memorando interno cobrando todos os inspetores pelos furtos frequentes e exigindo uma atuação mais dura para acabar com aquilo.

Na mesma hora repassei a ordem para o inspetor da área e às equipes de ronda: vigilância redobrada.

Também orientei os operadores do monitoramento para ficarem de olho em qualquer movimentação naqueles armazéns.

Não passou nem uma hora e o operador Aureliano me chamou:

— Inspetor, tem um elemento invadindo o Armazém 8 agora.

Peguei o rádio imediatamente:

— Atenção, atenção, Ronda Geral. Elemento suspeito no interior do Armazém 8.

Na viatura estavam Santos, motorista da ronda, e Silvestre.

Santos era um sujeito de quase dois metros de altura e uma largura que parecia chegar perto disso. Daí o apelido: Sombra.

O parceiro dele era o Silvestre, conhecido como “Stallone”, porque era quase um sósia do Rambo — personagem dos famosos filmes de Hollywood.

Poucos minutos depois veio, a resposta pelo rádio:

— Inspetor, tá na mão. Elemento detido com uns cinco metros de fio de cobre.

E logo completou:

— É um morador de rua, tá todo sujo de graxa. O que a gente faz agora, chefe?

Veio a preocupação prática:

— Vai sujar a viatura toda. O homem tá fedendo.

Respondi:

— Depois mandamos a viatura para lavar. O que não dá é continuar tomando cobrança por causa desses furtos.

— Encaminha o detido para a delegacia do porto, a Deatur (5ª Delegacia de Atendimento ao Turista, responsável pelo registro das ocorrências na área portuária).

Quase uma hora depois, ainda esperando atendimento, o Silvestre chamou pelo rádio:

— A delegada mandou levar pro NEPOM (Núcleo Especial de Polícia Marítima). Disse que isso é caso da Polícia Federal.

— Ok.

Lá foram eles.

Depois de mais um bom tempo de espera, uma nova chamada no rádio:

— Aqui no NEPOM mandaram voltar pra DEATUR. Disseram que, como o furto foi no armazém, o registro é da Polícia Civil.

Pouco depois, nova chamada:

— Agora mandaram levar pra sede da Polícia Federal, no centro. Falaram que o furto foi na área federal.

A essa altura, a ocorrência já estava mais rodada que catraca de ônibus.

Depois de outra canseira na porta da delegacia, o Silvestre chamou novamente:

— O delegado tá perguntando se o senhor quer mesmo que ele prenda o sujeito desse jeito.

Respondi:

— Não é questão de eu querer. É flagrante e furto continuado. Estamos sendo cobrados pela chefia.

Silvestre respondeu:

— Ele quer falar contigo pessoalmente antes de registrar.

Falei:

— O que ele quer? Tá querendo que eu dê um banho no sujeito?

Em seguida completei:

— Quem prende apresenta a ocorrência. Não precisa que eu vá até aí.

Minutos depois meu celular tocou.

Era o Silvestre, já num tom mais sério:

— Carvalhal, é melhor você vir aqui. Ele tá “P...” da vida.

— O delegado disse que, se fizer o flagrante, vai indiciar a gente por agressão e cárcere privado.

Na hora perguntei:

— Como assim? O que vocês fizeram?

— A gente não fez nada…

Foi então que veio a bomba:

Foi então que veio a bomba: outro guarda que não participava da ocorrência, teve um momento com o detido e fez valer sua alcunha.

— O Alma Sebosa passou no NEPOM quando a gente tava lá e deu um apavoro no vagabundo dentro da viatura.

O Germano, que trabalhava em Vicente de Carvalho, na outra margem do porto, famoso pelo modo delicado que tratava os malandros, tinha vindo a Santos para a troca de viatura. Na volta, depois de ouvir a troca de mensagens no rádio, decidiu deixar a sua marca lá.

— O delegado disse que tem as imagens.

Na hora soltei:

— Depois de horas com a ocorrência rodando, só agora vocês me contam isso?

No fundo, eu já sabia desde o começo que o delegado não queria registrar o flagrante. Ele queria que eu pedisse para ele não registrar.

Quando cheguei, ele veio com ironia:

— Então, inspetor Carvalhal, o senhor está exigindo que eu registre o flagrante desse morador de rua, sujo e fedendo?

E completou, com aquele sorriso de canto de boca:

— Não tem problema. Mas também vou indiciar os seus guardas.

O tom era puro deboche.

Na hora, me lembrei dos velhos jogos de truco dos tempos de AVR, nos plantões da Receita Federal, e resolvi blefar com sutileza.

Respondi:

— Doutor, a autoridade aqui não sou eu. Cabe ao senhor decidir o melhor a ser feito. Não estou exigindo nada. Tenho certeza de que sua decisão será a mais adequada para a situação.

Na mesma hora, a expressão dele mudou.

As sobrancelhas subiram, o sorriso sumiu.

Parecia que tinha saído de um churrasco direto para um velório.

Ele respirou fundo e disse:

— Pode ir embora, inspetor. Eu vou tomar as providências necessárias.

Saí da delegacia.

Os guardas e o detido ficaram por lá, aguardando a decisão do delegado.

Meia hora depois, Silvestre me ligou:

— Inspetor, o delegado dispensou a gente.

E completou:

— Depois que o senhor saiu, ele ficou andando de um lado pro outro. Aí mandou a gente deixar o vagabundo lá e ir embora.

O flagrante não foi registrado.

Mas, curiosamente, os furtos da fiação de cobre naqueles armazéns pararam dali em diante.

Até hoje não se sabe se foi o apavoro do Alma Sebosa ou a atitude do delegado que resolveu o problema.

Moral da história: quando ninguém quer assumir a própria responsabilidade e empurra para você a solução, tem que ter muita astúcia para que o problema não acabe nas suas costas.

Leia os três últimos casos publicados clicando nas ilustrações abaixo:

 



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