Os armazéns do Porto de Santos guardam, além de
mercadorias, muitas histórias
Domingo no porto
costuma ser aquele sossego: pouca operação, pouca gente trabalhando, e os
“chefes” todos em casa, curtindo a família ou aproveitando o descanso.
Num domingo desses,
eu estava de plantão no CCCom - Centro de Controle e Monitoramento. Em certo
momento, levantei da mesa e fui dar uma espiada nas câmeras do cais.
Foi aí que vi algo
estranho: um Gol branco, sem identificação nenhuma, parado em frente à escada
de um navio, atracado no cais do Armazém 38.
Aquilo me deixou com
uma interrogação na cabeça.
Intrigado, pedi aos
operadores que puxassem as imagens e verificassem por onde o veículo havia
ingressado.
Liguei para o guarda
de serviço. Quem estava lá era o Betão, um homem grande, daqueles que precisa
se curvar ao passar por uma porta. Cara fechada, voz grossa, pele escura — mais intimidador à primeira vista do que de
fato era.
Perguntei:
— Betão, você
autorizou a entrada de um gol branco aí?
— Deixei sim.
— E quem estava
dentro?
— Um fiscal.
— Fiscal de qual
instituição?
E ele respondeu, do
jeito mais simples do mundo:
— Ele só falou que
era fiscal.
Então eu avisei:
— Quando ele sair,
você identifica direitinho esse cidadão.
Continuei
acompanhando pelas câmeras. O tal fiscal desceu do navio, entrou no carro e foi
embora. Quando chegou perto da saída, o Betão o parou. Liguei de novo:
— E aí, identificou?
— Identifiquei… ele
disse que era da Vigiagro, mas não quis falar o nome.
Aquilo me indignou.
Continuei monitorando o trajeto do veículo, que seguiu pela Avenida Mário Covas
rumo à Bacia do Macuco.
Mandei a ronda de
policiamento, com os GPs Santos, conhecido como “sombra”, e Silvestre –
apelidado de Stallone, pela sua semelhança, pouca é verdade, com o ator de
Hollywood — uma dupla linha dura, abordarem o sujeito.
Mas ele deu outra
carteirada, acelerou e saiu com o carro cantando pneu.
Minha indignação só
aumentava, pois aquela pessoa se escorava atrás do título de “fiscal” para não
se identificar.
Minha última cartada
foi confiar que o inspetor Zé Freitas, conhecido como Pangaré — mas que na
verdade era um puro sangue —, ao abordá-lo, não se intimidaria e descobriria de
quem se tratava e o que fora fazer a bordo do navio.
A interceptação
ocorreu na Avenida Eduardo P. Guinle, esquina com o Canal do Mercado, em frente
à Casa do Café.
Dessa vez, o “fiscal”
foi identificado.
Logo em seguida,
recebi uma ligação de Zé Freitas:
— Chefe, trabalho
feito. Mas o homem tá bravo. É melhor o senhor vir aqui. Ele é chefe do Serviço
de Vigilância Agropecuária — Vigiagro — do Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento. Disse que é a quarta vez que foi parado pra se identificar e
que vai fazer um boletim de ocorrência contra o senhor por constrangimento.
Respondi na hora:
— Sem problema
nenhum. Mas antes ele vai te acompanhar até o prédio da Alfândega pra registrar
a ocorrência na autoridade aduaneira. Estou me dirigindo pra lá.
Cheguei e o “chefe”
mal olhava na minha cara. Me encarava como se quisesse me engolir vivo.
Fui direto ao balcão
de atendimento. O funcionário de plantão avisou:
— O fiscal
plantonista saiu pra comer um lanche, já volta.
Naquela época era
assim mesmo: fiscal de plantão não ficava na repartição. Se surgisse alguma
ocorrência, ele era chamado.
O curioso é que eu
estava tranquilo, sentado num canto, enquanto o “chefe” andava de um lado pro
outro, igual barata tonta, fazendo ligação no celular sem parar.
Até que me chamam:
— O superintendente
da Alfândega quer falar com o senhor.
Atendi:
— Bom dia, inspetor.
Aqui é Simião, superintendente da Alfândega. Qual a sua graça?
— Carvalhal.
Ele, em tom educado
e calmo, de fala pausada, típico mediador de conflitos, disse:
— É bom quando todas
as autoridades trabalham juntas pela segurança do porto.
Depois da troca de
elogios e confetes, concluiu:
— Soube que houve
uma leve discordância de opiniões. Nós que estamos todos os dias no porto
precisamos trabalhar em conjunto. Creio que isso pode ser resolvido de forma
amigável. Somos todos autoridades, cada um dentro de sua competência.
Respondi:
— Com certeza. Cada
um respeitando a área de atuação do outro.
Depois daquela
conversa diplomática, desliguei.
Logo apareceu o
fiscal plantonista, suado, bufando como se tivesse corrido uma maratona. Me
identificou pelo colete da Guarda Portuária e me abordou:
— O que aconteceu,
inspetor?
Naquele momento
percebi que o superintendente da Alfândega havia conversado comigo, mas não com
ele. Não era eu que ia falar sobre a conversa que tivemos. Apenas disse:
— Descumpriram uma
portaria da Receita Federal.
— Então vamos
registrar isso.
Chamou a mim e ao
chefe da VIGIAGRO pra sala dele e perguntou:
— Por que o senhor
entrou no cais com carro particular, sem logotipo, e ainda se recusou a se
identificar?
O sujeito, sentado
ao meu lado, estendeu o braço e exibiu a sua babilaca na minha cara — no meio policial, babilaca ou
babilaque é a identificação funcional utilizada por agentes do Estado — e
disparou:
— Eu sou chefe da
Vigiagro. Essa “pequena autoridade” acha que é alguma coisa e ficou me
constrangendo.
Meu sangue subiu. E
meu tom de voz também:
— Pequena autoridade
é o caralho! Não é uma babilaca que faz alguém ser maior ou menor que ninguém!
O clima esquentou.
O fiscal plantonista
levantou, bateu na mesa e gritou:
— Aqui a autoridade
sou eu! Vamos acabar logo com isso!
Virou-se pra mim:
— Inspetor, qual
portaria ele descumpriu?
— Portaria 111.
Ele, então, começou
a datilografar a ocorrência numa máquina velha, que já naquela época parecia
peça de museu. Estava tão nervoso que, em certo momento, afastou a máquina e
disse:
— Inspetor, senta
aqui e termina isso. Eu não tô conseguindo.
Terminei o registro.
O chefe da VIGIAGRO
saiu bufando, feito touro bravo, e desistiu da ideia de delegacia. Voltei pro
meu plantão e registrei tudo também na Guarda Portuária.
Na prática, fiz os
dois registros: da Autoridade Aduaneira e da Autoridade Portuária.
Naquela época, ainda
vigorava um protocolo herdado do tempo da ditadura: quando alguma instituição —
ou um de seus integrantes — se envolvia em ocorrência, o caso era remetido à
própria instituição.
Na mesma semana,
fiquei sabendo: o engenheiro agrônomo Everlando, o famoso “Landinho”, foi
destituído do cargo de chefe da VIGIAGRO em Santos e transferido para o Porto
de Paranaguá.
Soube também que já
havia diversas denúncias contra ele, inclusive feitas pelos próprios fiscais da
Vigiagro, sobre irregularidades na emissão de autorizações de carregamento de
carga.
Dessa vez, ninguém
conseguiu passar pano. Essa ocorrência foi à pá de cal.
Moral da história:
Não é uma babilaca que faz alguém ser grande autoridade. Quem faz isso é a
postura e o respeito de quem ocupa o cargo.
Texto: Carlos
Carvalhal
Ilustração: Gerada por AI — Inteligência Artificial.
* Esta é uma
história de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são
fictícios. Desta vez, o nome real do personagem foi divulgado como forma de
reconhecimento. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem
conta um conto sempre aumenta um ponto. A ilustração foi
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