Postagem em destaque

NO PODCAST PORTO&GENTE CONTEI UM POUCO DA MINHA HISTÓRIA NO PORTO DE SANTOS

Uma trajetória de mais de 30 anos, com atuação na Receita Federal, na Guarda Portuária, nas áreas sindical, cooperativista, beneficente e em...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

0

CASOS DO CAIS: LANDINHO E A PEQUENA AUTORIDADE


Os armazéns do Porto de Santos guardam, além de mercadorias, muitas histórias

Domingo no porto costuma ser aquele sossego: pouca operação, pouca gente trabalhando, e os “chefes” todos em casa, curtindo a família ou aproveitando o descanso.

Num domingo desses, eu estava de plantão no CCCom - Centro de Controle e Monitoramento. Em certo momento, levantei da mesa e fui dar uma espiada nas câmeras do cais.

Foi aí que vi algo estranho: um Gol branco, sem identificação nenhuma, parado em frente à escada de um navio, atracado no cais do Armazém 38.

Aquilo me deixou com uma interrogação na cabeça.

Intrigado, pedi aos operadores que puxassem as imagens e verificassem por onde o veículo havia ingressado.

Liguei para o guarda de serviço. Quem estava lá era o Betão, um homem grande, daqueles que precisa se curvar ao passar por uma porta. Cara fechada, voz grossa, pele escura  — mais intimidador à primeira vista do que de fato era. 

Perguntei:

— Betão, você autorizou a entrada de um gol branco aí?

— Deixei sim.

— E quem estava dentro?

— Um fiscal.

— Fiscal de qual instituição?

E ele respondeu, do jeito mais simples do mundo:

— Ele só falou que era fiscal.

Então eu avisei:

— Quando ele sair, você identifica direitinho esse cidadão.

Continuei acompanhando pelas câmeras. O tal fiscal desceu do navio, entrou no carro e foi embora. Quando chegou perto da saída, o Betão o parou. Liguei de novo:

— E aí, identificou?

— Identifiquei… ele disse que era da Vigiagro, mas não quis falar o nome.

Aquilo me indignou. Continuei monitorando o trajeto do veículo, que seguiu pela Avenida Mário Covas rumo à Bacia do Macuco.

Mandei a ronda de policiamento, com os GPs Santos, conhecido como “sombra”, e Silvestre – apelidado de Stallone, pela sua semelhança, pouca é verdade, com o ator de Hollywood — uma dupla linha dura, abordarem o sujeito.

Mas ele deu outra carteirada, acelerou e saiu com o carro cantando pneu.

Minha indignação só aumentava, pois aquela pessoa se escorava atrás do título de “fiscal” para não se identificar.

Minha última cartada foi confiar que o inspetor Zé Freitas, conhecido como Pangaré — mas que na verdade era um puro sangue —, ao abordá-lo, não se intimidaria e descobriria de quem se tratava e o que fora fazer a bordo do navio.

A interceptação ocorreu na Avenida Eduardo P. Guinle, esquina com o Canal do Mercado, em frente à Casa do Café.

Dessa vez, o “fiscal” foi identificado.

Logo em seguida, recebi uma ligação de Zé Freitas:

— Chefe, trabalho feito. Mas o homem tá bravo. É melhor o senhor vir aqui. Ele é chefe do Serviço de Vigilância Agropecuária — Vigiagro — do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disse que é a quarta vez que foi parado pra se identificar e que vai fazer um boletim de ocorrência contra o senhor por constrangimento.

Respondi na hora:

— Sem problema nenhum. Mas antes ele vai te acompanhar até o prédio da Alfândega pra registrar a ocorrência na autoridade aduaneira. Estou me dirigindo pra lá.

Cheguei e o “chefe” mal olhava na minha cara. Me encarava como se quisesse me engolir vivo.

Fui direto ao balcão de atendimento. O funcionário de plantão avisou:

— O fiscal plantonista saiu pra comer um lanche, já volta.

Naquela época era assim mesmo: fiscal de plantão não ficava na repartição. Se surgisse alguma ocorrência, ele era chamado.

O curioso é que eu estava tranquilo, sentado num canto, enquanto o “chefe” andava de um lado pro outro, igual barata tonta, fazendo ligação no celular sem parar.

Até que me chamam:

— O superintendente da Alfândega quer falar com o senhor.

Atendi:

— Bom dia, inspetor. Aqui é Simião, superintendente da Alfândega. Qual a sua graça?

— Carvalhal.

Ele, em tom educado e calmo, de fala pausada, típico mediador de conflitos, disse:

— É bom quando todas as autoridades trabalham juntas pela segurança do porto.

Depois da troca de elogios e confetes, concluiu:

— Soube que houve uma leve discordância de opiniões. Nós que estamos todos os dias no porto precisamos trabalhar em conjunto. Creio que isso pode ser resolvido de forma amigável. Somos todos autoridades, cada um dentro de sua competência.

Respondi:

— Com certeza. Cada um respeitando a área de atuação do outro.

Depois daquela conversa diplomática, desliguei.

Logo apareceu o fiscal plantonista, suado, bufando como se tivesse corrido uma maratona. Me identificou pelo colete da Guarda Portuária e me abordou:

— O que aconteceu, inspetor?

Naquele momento percebi que o superintendente da Alfândega havia conversado comigo, mas não com ele. Não era eu que ia falar sobre a conversa que tivemos. Apenas disse:

— Descumpriram uma portaria da Receita Federal.

— Então vamos registrar isso.

Chamou a mim e ao chefe da VIGIAGRO pra sala dele e perguntou:

— Por que o senhor entrou no cais com carro particular, sem logotipo, e ainda se recusou a se identificar?

O sujeito, sentado ao meu lado, estendeu o braço e exibiu a sua babilaca  na minha cara — no meio policial, babilaca ou babilaque é a identificação funcional utilizada por agentes do Estado — e disparou:

— Eu sou chefe da Vigiagro. Essa “pequena autoridade” acha que é alguma coisa e ficou me constrangendo.

Meu sangue subiu. E meu tom de voz também:

— Pequena autoridade é o caralho! Não é uma babilaca que faz alguém ser maior ou menor que ninguém!

O clima esquentou.

O fiscal plantonista levantou, bateu na mesa e gritou:

— Aqui a autoridade sou eu! Vamos acabar logo com isso!

Virou-se pra mim:

— Inspetor, qual portaria ele descumpriu?

— Portaria 111.

Ele, então, começou a datilografar a ocorrência numa máquina velha, que já naquela época parecia peça de museu. Estava tão nervoso que, em certo momento, afastou a máquina e disse:

— Inspetor, senta aqui e termina isso. Eu não tô conseguindo.

Terminei o registro.

O chefe da VIGIAGRO saiu bufando, feito touro bravo, e desistiu da ideia de delegacia. Voltei pro meu plantão e registrei tudo também na Guarda Portuária.

Na prática, fiz os dois registros: da Autoridade Aduaneira e da Autoridade Portuária.

Naquela época, ainda vigorava um protocolo herdado do tempo da ditadura: quando alguma instituição — ou um de seus integrantes — se envolvia em ocorrência, o caso era remetido à própria instituição.

Na mesma semana, fiquei sabendo: o engenheiro agrônomo Everlando, o famoso “Landinho”, foi destituído do cargo de chefe da VIGIAGRO em Santos e transferido para o Porto de Paranaguá.

Soube também que já havia diversas denúncias contra ele, inclusive feitas pelos próprios fiscais da Vigiagro, sobre irregularidades na emissão de autorizações de carregamento de carga.

Dessa vez, ninguém conseguiu passar pano. Essa ocorrência foi à pá de cal.

Moral da história: Não é uma babilaca que faz alguém ser grande autoridade. Quem faz isso é a postura e o respeito de quem ocupa o cargo.

Texto: Carlos Carvalhal

Ilustração: Gerada por AI — Inteligência Artificial.

* Esta é uma história de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Desta vez, o nome real do personagem foi divulgado como forma de reconhecimento. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto. A ilustração foi 


Leia também outros casos clicando nas imagens abaixo:






A nossa missão é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto (Safety/Security). A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor.    

* Texto: O texto deste artigo relata acontecimentos, baseado em fatos obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis e dados observados ou verificados diretamente junto a colaboradores.

* Direitos Autorais: Os artigos e notícias, originais deste Portal, tem a reprodução autorizada pelo autor, desde que, seja mencionada a fonte e adicionado o link do artigo.


Continue lendo ►

LEGISLAÇÕES