Toda vez que um navio português atracava no Porto de
Santos era uma festa - e, com certeza, uma festa portuguesa
Na década de 1980,
vários navios portugueses vinham ao porto e, sempre que isso acontecia, a
comunidade portuguesa dava um jeitinho de subir a bordo pra visitar os
patrícios.
Era quase uma
romaria. Praticamente todos os donos de padaria da cidade — que dominavam esse
ramo — apareciam por lá.
Além de matar a
saudade da terra, iam atrás de produtos típicos: bacalhau, sardinha salgada,
azeite, azeitonas… coisas que, naquela época não se encontravam com facilidade
nos supermercados, como hoje.
Num sábado à noite,
eu estava de plantão no prédio da Alfândega, trabalhando como Auxiliar de
Vigilância e Repressão — AVR. O supervisor e o fiscal tinham saído pra fazer a
ronda no cais, e fui até a porta voltada para o porto.
Foi aí que comecei a
notar uma movimentação estranha:
Havia um entra e sai
de pessoas carregando várias sacolas. Conversavam com um guarda portuário numa
guarita de madeira, no oitão do Armazém 7, subiam a passarela e depois desciam,
saindo ao lado do prédio da Alfândega, já na Praça da República. Era movimento
demais pra ser coisa normal.
Com o rádio na mão,
me aproximei e comecei a abordar essas pessoas.
— Parado aí! Quem é
o senhor? De onde o senhor é?
— Sou o Joaquim. Da
padaria Vila Nova de Foz Coa.
— E o que o senhor
foi fazer no cais?
— Fui ver uns amigos
no navio Muxima, que está ali no Armazém 8. Sempre que um navio da minha terra,
eu e os meus amigos vamos a bordo para rever os amigos.
— E o que tem nessas
sacolas?
— Umas coisinhas que
ganhei…
Aí conheci mais um
costume do cais.
O português me
contou que entrou pelo Posto Fiscal 4, subiu no navio e resolveu sair por ali,
achando que ninguém ia notar.
Falei na lata:
— Isso é
contrabando! O senhor está detido e a mercadoria vai ser apreendida pela
Receita Federal.
Ele ficou todo
nervoso, tremia que nem vara verde, e com a voz trêmula e num sotaque carregado
falou:
— Ora pois, não faça
isso comigo! Pode ficar com tudo, mas me libera que eu ainda tenho que voltar
para fechar a minha padaria.
Nisso, o guarda
portuário viu a situação e veio correndo:
— O que tá
acontecendo aí?
— Está todo mundo
detido e a mercadoria apreendida.
Ele quase entrou em
desespero:
— Se o fiscal voltar
e ver isso, eu tô na rua! Libera o pessoal que eu te dou tudo o que eu ganhei
ali na guarita!
Não parava de virem
outros portugueses vindos do navio, a situação estava ficando incontrolável, e
eu ali sozinho.
Na hora, pensei
rápido. Eu não podia ser conivente com aquilo, mas também não queria prejudicar
um trabalhador e os portugueses por causa de uma prática, que já fazia parte da
rotina na atracação dos navios portugueses.
Então respondi ao
guarda:
— Volta pro teu
posto e não deixa sair mais ninguém por lá. Manda todo mundo sair pelo Posto
Fiscal 4.
E virei pros
portugueses:
— Podem ir embora,
mas vão rápido. E daqui pra frente, saiam pelo lugar certo. Se o fiscal
aparecer, vai sobrar pra todo mundo.
Eles ficaram
aliviados na mesma hora:
— Muito obrigado,
senhor agente! Muito obrigado mesmo!
E aí, virou uma
festa.
O alívio foi tão
grande que, no impulso, alguns começaram a me empurrar sacolas e embrulhos nas
mãos, num gesto atrapalhado de agradecimento.
Na verdade, aquilo
já fazia parte de uma regra não escrita do cais. Havia tortos que iam se
repetindo no dia a dia, quase como certos costumes se fossem parte da rotina.
E, naquela situação, o único jeito de recusar tudo de verdade seria endurecer,
levar o caso adiante e acabar entregando o guarda de vez.
Tentei devolver,
dizer que não precisava, mas ninguém queria ouvir. Naquela altura, já não era
mais questão de aceitar ou recusar — era só fazer aquilo acabar antes que
alguém aparecesse. Um já vinha com azeite, outro com sardinha, outro com
azeitona, e quando percebi, já estava com os braços ocupados, querendo que eles
fossem embora e aquilo acabasse o mais rápido possível do que propriamente
receber qualquer coisa.
Logo depois, até o
guarda, ainda atordoado com o susto, apareceu com mais um pacote na mão,
insistindo no agradecimento como quem queria encerrar de vez aquela encrenca.
Poucos minutos
depois — e foi por um triz — o supervisor e o fiscal voltaram da ronda
E lá estava eu:
sério, rádio na mão, olhando pro cais como se nada tivesse acontecido enquanto
eles estavam fora.
Quando cheguei em
casa, com meio armazém português debaixo do braço, minha mãe — viúva e filha de
portugueses — se encantou com aquelas delícias da terrinha.
— Meu filho, onde
você comprou essas coisas?
— Fui numa festa
portuguesa… e ganhei de uns amigos.
Anos depois, entrei
na Guarda Portuária.
Na primeira semana,
me chamaram pra jogar futebol de salão na quadra da Igreja São Judas Tadeu, no bairro
do Marapé, onde a Turma “D” treinava.
Assim que entrei, um
guarda veio na minha direção:
— Tô te
reconhecendo… você não é o AVR que parou os portugueses atrás da Alfândega?
Na hora eu lembrei.
Deu aquele gelo.
— Sou eu mesmo…
Ele riu:
— Você me deu um
baita susto naquele dia… mas foi gente boa. Podia ter acabado comigo.
Aí chamou todo
mundo:
— Ó, esse aqui é o
AVR Carvalhal que eu contei pra vocês. Gente fina!
Todo mundo veio
falar comigo, me cumprimentar, dar risada da história. Ali, o AVR Carvalhal virou
o GP Carvalhal.
Depois ele se
apresentou:
— Meu nome é
Eduardo. Qualquer coisa na Guarda, você pode contar comigo.
Ufa, o susto passou.
Ele era da Ronda
Geral, respeitado por todo mundo. Virou meu cartão de visita no novo emprego.
Sempre sorridente,
querido por todos e dono de uma simpatia rara. Ele tinha um apelido improvável
para um homem negro: “Moranguinho” — dizem que é porque todo dia levava suco de
morango no lanche.
Olha que
coincidência: depois descobri que ele trabalhava na ronda com um primo meu, que
eu nem conhecia. Apesar de carregar o mesmo sobrenome, ele era mais conhecido
pelo primeiro nome e pelo apelido de “Bicudo”.
Infelizmente, não
convivemos muito tempo. Alguns anos depois, o Moranguinho saiu da Guarda e foi
morar nos Estados Unidos.
Na Copa de 1994,
durante uma transmissão, a câmera passeou pela torcida. E quem apareceu lá,
torcendo pelo Brasil? Ele mesmo: o Moranguinho. Foi a última vez que tive
notícia dele.
Moral da história:
O que você faz hoje pode voltar pra você lá na frente. Às vezes, uma atitude simples vira respeito pra vida toda.
Texto: Carlos Carvalhal
Ilustração: Gerada por IA — Inteligência Artificial.
* Esta é uma
história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos
envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque
quem conta um conto sempre aumenta um ponto.
Leia os três últimos casos publicados clicando nas ilustrações abaixo:
Leia todos os casos publicados clicando aqui:
A nossa missão é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto (Safety/Security). A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor.
* Texto: O texto deste artigo relata acontecimentos, baseado em fatos obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis e dados observados ou verificados diretamente junto a colaboradores.
* Direitos Autorais: Os artigos e notícias, originais deste Portal, tem a reprodução autorizada pelo autor, desde que, seja mencionada a fonte e adicionado o link do artigo.











