Será fácil deduzir que se trata de uma "narcolancha",
um tipo de embarcação construídas por traficantes para transportar grandes
quantidades de drogas
No último sábado,
pescadores da cidade maranhense de Cururupu saíram de barco para pescar e
retornaram com algo inesperado: outro barco, vazio e abandonado, que
encontraram à deriva no mar.
E não era um barco
como outro qualquer.
Era uma lancha de
formato curioso, com 12 metros de comprimento, equipada com sofisticados
aparelhos eletrônicos (GPS, radar, navegador via satélite) e três potentes
motores de popa de 300 hp cada, que, quando novos, valeriam cerca de meio
milhão de reais.
Mesmo assim, ela
parecia ter sido abandonada muito tempo atrás, como indicava o seu casco encardido
e os motores corroídos pelo longo contato com a água do mar.
Não havia um nome
pintado no casco, nem bandeira, muito menos registro do seu porto de origem,
obrigatório em todos os barcos.
Mas isso tinha um
motivo óbvio: tratava-se de um barco certamente usado por traficantes para
transportar drogas, mas bem longe dali, como atestava o seu precário estado,
pelo longo tempo que passou à deriva no mar, sabe-se lá desde quando, onde e
por quê? — perguntas que, agora, a
Polícia Federal e a Marinha do Brasil, que estiveram no local na segunda-feira,
periciando a estranha embarcação, tentarão responder.
Uma "narcolancha"
Mas será fácil
deduzir que se trata de uma "narcolancha", um tipo de embarcação
construídas por traficantes para transportar grandes quantidades de drogas,
equipadas com motores poderosos, capazes de fazer os barcos passarem dos 120
km/h na água — mais velozes do que qualquer lancha de patrulhamento, justamente
para escapar de perseguições no mar. Isso é certo.
O formato e
características daquele "misterioso barco" — comprido e potente —
como foi logo chamado pelos moradores da cidade, garantem isso.
A única dúvida é de
onde ele veio e por que foi abandonado?
Veio do Caribe ou Europa?
A rigor, há duas
possibilidades.
Aquele estranho
barco tanto pode ter vindo à deriva desde o Caribe, onde traficantes venezuelanos
e colombianos costumam usar lanchas desse tipo para transportar drogas para os
Estados Unidos (como tem defendido Donald Trump para justificar os ataques letais
que tem feito contra pequenos barcos na costa venezuelana), ou — o que parece
mais provável — chegado pelo lado oposto do oceano, desde a costa africana ou espanhola,
onde o tráfico de cocaína e haxixe é ainda mais intenso, numa jornada de meses
vagando sem rumo, até dar naquela esquecida parte do litoral do Maranhão, no
último sábado.
Neste caso, ele
teria cruzado todo o Atlântico sem ninguém a bordo, depois de ter sido
abandonado do outro lado do oceano.
Difícil mesmo será
saber por que isso aconteceu.
Teria sido
abandonada?
Há, também, duas
hipóteses.
Uma delas pode ter
sido o abandono proposital do barco pelos próprios traficantes, após "cumprirem
a missão" e desovado as drogas que transportavam em alguma praia da
Andaluzia ou Galícia, regiões costeiras da Espanha que hoje servem como uma das
principais portas de entrada para drogas na Europa, ou nas Ilhas Canárias, que
também pertencem à Espanha e ficam igualmente próximas do continente africano,
de onde costumam partir barcos desse tipo para travessias voadoras até algum território
europeu.
Já a outra hipótese
seria consequência da interceptação da lancha no mar, embora, pela velocidade
propiciada pelos motores que equipam as narcolanchas (algumas delas chegam a
ter quatro motores e mais de 1 000 hp de potência), nenhum outro barco de vigilância
consegue alcançar.
Neste caso, o
destino dos traficantes envolvidos seria ainda desconhecido.
Tiro no painel?
Mas a primeira
hipótese é a mais provável, já que não havia mais nenhum vestígio de drogas no
barco — e abandonar ou afundar os barcos após cada entrega, mesmo eles tendo
custado um bom dinheiro, faz parte do modus operandi dos traficantes, para não deixar
pistas nem correr riscos desnecessários na viagem de volta.
No entanto, pelo
menos um dos instrumentos do painel do barco encontrado em Cururupu — onde
virou atração no porto da cidade — apresentava um estranho estilhaçamento, como
se tivesse sido atingido por um disparo de arma de fogo.
Quem estava naquele
barco, transportando o quê e onde?
Por ora, o
misterioso achado no mar maranhense embute muitas perguntas, que talvez jamais
tenham respostas.
Certo mesmo é que o
dono do barco jamais aparecerá para reclamá-lo, e ele deverá ficar para os
pescadores que o encontraram, embora seus valiosos motores pareçam estar
imprestáveis.
Cocaína ou haxixe?
Ao que tudo indica,
a narcolancha agora maranhense — que é equipada com apenas três assentos em
fila e um posto de pilotagem básico, para não ocupar o espaço destinado a
"carga", além de três motores que valeriam pequenas fortunas — pode ter
sido usada pelos traficantes para transportar cocaína vinda da América do Sul
em grandes navios até alguma praia europeia, já que ela não teria autonomia de
combustível para cruzar o oceano.
E o mesmo valeria
para o caso de ter vindo do Caribe, onde lanchas desse tipo são usadas para
transportar droga no sentido oposto, da costa para os navios, rumo aos Estados
UnidOu, então, haxixe (uma espécie de maconha, mas bem mais poderosa) oriundo
do Marrocos para a Europa, através do Estreito de Gibraltar, que separa a
Espanha da África, e que, como o seu próprio nome diz, tem apenas 14 quilômetros
de distância no seu ponto mais estreito — uma travessia que duraria pouco mais
de cinco minutos em uma lancha desse tipo.
Quando necessário,
as narcolanchas (que têm capacidade de transportar até três toneladas de droga
a cada viagem) são reabastecidas de combustível no próprio mar por aliados das
gangues, já que o consumo de seus motores é altíssimo (algo em torno de 200
litros de gasolina por hora, no caso da lancha encontrada no Maranhão), mas não
faria sentido equipá-las com grandes tanques de combustível — nelas, todos os
espaços são destinados apenas às drogas.
O "narcosubmarino" brasileiro
A exceção a esta
regra existe apenas em outro tipo de embarcação que também vem sendo usada cada
vez mais pelos traficantes para escoar drogas pelo mar: os narcosubmarinos —
engenhos construídos em estaleiros improvisados, mas capazes de cruzar o oceano
Atlântico semi-submersos (o bastante para não serem detectados pelos radares) e
levar cocaína da América do Sul para a Europa.
Quem primeiro usou
este recurso foi o maior traficante de cocaína da história, o colombiano Pablo
Escobar, como forma de ampliar seus negócios.
No entanto, o
primeiro submarino do gênero a chegar à Europa, com toneladas da droga, foi
construído — e partiu — do Brasil em 2019, em uma travessia repleta de
ousadias, que teria dado certo não fosse o pânico que tomou conta dos seus
tripulantes ao chegar à Espanha, como pode ser conferido clicando aqui.
Autor/Fonte: Jorge de Souza - Colunista do Site UOL
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