No início da década de 90, a chefia da Guarda Portuária do
Porto de Santos implantou a função de estafeta
O objetivo dessa
nova função era simples: um
guarda percorreria os postos fiscais e as subsedes, cuidando de serviços burocráticos, como colher assinatura de ponto, entregar convocação
para exames médicos, avisos de férias, escalas de serviço e outras papeladas,
liberando assim as viaturas para o policiamento do Porto de Santos.
Nessa época eu
trabalhava na Turma E, na equipe do Inspetor II Melo, um dos melhores chefes que
tive. Anos depois, quando ocupei o mesmo cargo, ele foi a minha principal referência.
Faziam parte da
equipe o Ralf — motorista do inspetor — e o Alberto, “Chuca”, o operador de
rádio. A origem do apelido ninguém sabe ao certo. Diziam que era por ser loiro,
de cabelos cacheados, lembrando aqueles bebês de propaganda de revista, com uma chuquinha
na boca.
Eu era o mesário,
uma espécie de secretário do inspetor.
Melo era sério,
experiente, competente e, acima de tudo, sabia lidar com gente. Ao contrário de
muitos inspetores da época — que nunca tinham sido guardas e vinham dos setores administrativos da empresa — não liderava na
base da repressão e da perseguição.
Enquanto outros
viviam procurando erros para punir, Melo tinha o dom de administrar pessoas.
Criava momentos de descontração e deixava o ambiente leve, o que fazia a equipe
funcionar melhor.
Para integrar a
equipe na função de estafeta, ele escolheu Estefânio, jovem, educado e
motoqueiro — requisito essencial para a função. Poucos tinham esse perfil. Talvez
até fosse o único.
Outro requisito era
ter muita coragem… ou pouca noção do perigo. Andar de moto na área o portuária
nunca foi tarefa fácil: paralelepípedos irregulares, trilhos expostos e
resíduos no chão transformavam qualquer trajeto em risco.
Além disso, quem
dirigia veículo da empresa tinha que assinar um termo, isentando a companhia de responsabilidade por acidentes
ou danos.
Com a chegada do
novo integrante, Melo esperou o momento certo para integrá-lo ao espírito de
convivência da equipe.
Estefânio era um
rapaz de classe média alta, no auge da juventude, e cultivava o hábito de,
religiosamente, comprar a revista Playboy todos os meses.
Embora a revista
ostentasse reportagens, entrevistas e colunas de jornalistas renomados, como a
maioria dos leitores, o principal interesse dele era outro: os ensaios
fotográficos com as mulheres famosas da época, cujo figurino se resumia a um
generoso banho de óleo corporal.
Certo dia ele chegou
ao trabalho radiante:
— Inspetor, consegui
comprar a revista da Bruna!
A edição daquele mês
era dupla e trazia o ensaio da Bruna Lombardi. A atriz era um dos nomes mais
pedidos pelos leitores. A revista logo se esgotou em todas as bancas da cidade.
Melo deu uma
folheada na revista, mas o seu pensamento estava adiante. Quem o conhecia já
sabia que ele estava planejando alguma coisa.
Quando Estefânio
saiu para fazer a ronda de sempre, Melo armou tudo. Ligou para Silvano, o
“Careca”, mesário da 3ª Subsede, e combinou a pegadinha.
Na volta,
perguntou:
— Estefânio, cadê a
revista? Me deixa dar mais uma olhada.
— Emprestei pro
Silvano Careca.
Melo fez cara de
espanto:
— Pra ele? Você não
sabe que ele é viciado em sexo?
E continuou:
— Ele usa essas
revistas pra baixar a testosterona.
Seguindo o roteiro,
Chuca saiu da sala do rádio e soltou:
— Já emprestei uma
dessas pra ele. Devolveu com páginas coladas e manchas suspeitas…
Ralf reforçou:
— Todo mundo sabe
que ele é tarado. Já pegaram ele trancado na guarita, se esbaldando com essas
revistas.
Eu completei:
— Todo mundo conhece
a fama dele.
Nessa hora,
Estefânio entrou em desespero.
Pegou o telefone e
ligou para a 3ª Subsede. Mas era tarde, Silvano já tinha ido embora.
A ansiedade
virou pânico.
A revista era como
um troféu conquistado. Ele era o único na Guarda Portuária que tinha aquele
exemplar e se orgulhava de se exibir.
No dia seguinte,
foi direto cobrar o Careca.
— Cadê minha revista?
Silvano respondeu
calmamente:
— Tá aqui,
Estefânio. Gostei muito, tem excelentes reportagens. Vou pedir para o Aguinaldo
te levar.
Quando recebeu a
revista e começou a folhear, veio o choque:
— Que porra é essa?!
Tá tudo colado! Bem que o inspetor falou que ele era um velho tarado!
Silvano havia colado
as bordas de algumas páginas com uma cola caseira feita de farinha, justamente as
das fotos da Bruna, tudo combinado com o inspetor.
Estefânio ligou
novamente para ele bufando de raiva, xingando o colega de tudo quanto era nome.
Depois do telefonema,
disparou:
— Vocês tinham
razão! Aquele velho fez sem-vergonhice com a minha revista! As páginas estão
todas coladas!
Apesar da vontade de
rir, todos nós mantivemos a postura séria, dando apoio à indignação dele, pela
sacanagem que o Silvano tinha feito.
Durante todo o dia,
em cada posto por onde passava, ele contava a história.
Só no dia seguinte o
inspetor revelou a verdade.
— Estefânio, isso
tudo foi brincadeira. Eu pedi pro Silvano colocar só um pingo de cola nas
bordas pra te enganar.
No começo ele ficou
bravo.
Depois que caiu a
ficha na cabeça dele, todo mundo caiu na gargalhada.
Naquele momento ele
foi oficialmente inserido no espírito da equipe.
Todos foram ao
encontro dele, abraçaram e disseram:
— Seja bem-vindo à
Turma E.
A função de estafeta,
no entanto, não durou muito tempo.
Bastou um tombo de
moto e alguns ossos quebrados para a ideia ser abolida.
Moral da história: Mais importante do que mandar é saber liderar. Quando o ambiente é leve
e a equipe trabalha unida, o serviço flui muito melhor.
Texto: Carlos
Carvalhal
Ilustração: Gerada
por IA — Inteligência Artificial.
* Esta é uma história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto.
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