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quinta-feira, 26 de março de 2026

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CASOS DO CAIS: SALVO PELO MAL SÚBITO


Para manter o emprego no Porto de Santos, o guarda portuário tinha que se virar como podia

Até o final da década de 1980, os guardas trabalhavam em condições precárias e sob pressão constante. A grande maioria dos postos não tinha água potável. Alguns não tinham sanitário, nem cadeira para sentar — porque simplesmente não era permitido sentar — e, pior ainda, naquela época os guardas não podiam se sindicalizar.

Um dos postos mais puxados era a portaria do Terminal de Fertilizantes — o famoso Tefer — na Margem Esquerda do porto, em Vicente de Carvalho, no Guarujá. Era uma guarita de madeira elevada, com as janelas na altura da cabine dos caminhões. Dois guardas, quando tinha efetivo — muitas vezes era só um mesmo — controlando entrada e saída. Sem água, banheiro longe… e pressão o tempo todo.

O trabalho exigia atenção total. Tudo era anotado na mão: dados do caminhão, do motorista e da carga. Alguns produtos eram controlados pelo Exército. Qualquer erro dava problema — e punição vinha na certa.

Na maioria das vezes, formava fila de caminhão pra carregar o produto que vinha dos navios. Era serviço direto, sem parar. Num turno de seis horas, o guarda tinha direito a 15 minutos de lanche — isso quando alguém aparecia pra render. E não tinha lugar pra comer. A cantina ficava longe.

Raro era o dia — ou a madrugada — em que dava uma folga.

Numa dessas madrugadas, depois de horas puxadas, a operação parou. Jairo, conhecido como “Terror” — apelido que, segundo diziam, vinha da voz grossa e meio assustadora, tipo personagem de filme do Hitchcock — fechou o portão.

Sem movimento nenhum, ele pegou um papelão, estendeu no chão da guarita e resolveu tirar um cochilo.

O inspetor da área era o Martins Barros, conhecido como “Perdido” porque quando foi transferido para a Guarda Portuária não conhecia nada do trabalho no cais. Os inspetores daquela época vinham da área administrativa, não eram guardas de carreira, e costumavam impor uma disciplina mais dura.

Quando soube que a operação tinha parado no Tefer, “Perdido” falou pro motorista:

— Vamos lá. Hoje eu pego aquele “Terror” no pulo.

Chegando perto do posto, como não viu o guarda, mandou parar a viatura um pouco antes. Desceu em silêncio, subiu a escada na ponta dos pés e abriu a porta devagar.

E lá estava o Jairo… esticado no chão, dormindo de bruços.

Na hora, abriu um sorriso daqueles. Tinha pegado no flagra.

E soltou, todo animado:

— Hoje você não escapa! Me passa a sua parte diária que eu vou te comunicar!

A “parte diária” era o documento onde o guarda registrava tudo do posto — e uma canetada ali era suspensão na certa.

Mas Jairo era ligeiro. Sergipano, acostumado a se virar na vida, pensou rápido.

Assim que ouviu a voz do inspetor, puxou o documento do bolso, se virou, estendeu a mão e, com a voz fraca, mandou:

— Tá aqui minha parte diária… pode escrever o que quiser… mas antes chama uma ambulância que eu tô passando mal faz tempo… e não aparece ninguém pra me socorrer…

“Perdido” até desconfiou… mas não quis arriscar.

Desceu da guarita, foi até a viatura e chamou socorro pelo rádio.

Poucos minutos depois, chegou a ambulância.

Jairo entrou no personagem: mão no peito, respiração ofegante, corpo tremendo… uma atuação de respeito.

Chegando ao pronto-socorro, como era caso de emergência passou na frente de todo mundo.

O médico pediu eletrocardiograma e exames de sangue. Tudo com o inspetor acompanhando de perto.

Quando saiu o resultado, o médico falou:

— Sr. Jairo, o senhor está bem agora. Os exames não mostraram nada. Pode ter sido um princípio de infarto, uma crise de ansiedade… ou até dor na coluna. Vou te dar dez dias de licença e encaminhar pro cardiologista.

Na hora, incrédulo, o “Perdido” ficou com aquela cara de quem engoliu seco, sem ter o que fazer.

Mandou o motorista levar o guarda até em casa.

Resultado final: Jairo “Terror” escapou da punição, ganhou carona e ainda levou dez dias de folga.

Se tivesse um diretor de cinema ali, ia dizer que aquilo não foi cena de terror, não… foi atuação digna de Oscar.

Moral da história: Nunca subestime a esperteza de quem já aprendeu a sobreviver na marra.

 

Texto: Carlos Carvalhal

Ilustração: Gerada por IA — Inteligência Artificial.

 

* Esta é uma história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Os locais e ambientes retratam as condições da época. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto.


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