O termo normalmente utilizado pelas polícias quando se
referem a um navio que transporta cocaína é de que ele está “contaminado”
O método mais
empregado atualmente para transporte de grandes carregamentos de drogas é o do
mergulho. Conforme apuração, as apreensões não são inferiores a cem quilos. A
maior já feita nesse sistema foi da ordem de 500 quilos. Por Guaracy Mingardi.
Guaracy Mingardi - Doutor em Ciência Política e associado
do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O termo normalmente
utilizado pelas polícias quando se referem a um navio que transporta cocaína é
de que ele está “contaminado”. E evitar a contaminação é tarefa muito difícil. Isso
se deve ao fato de que sempre que um modelo se torna muito conhecido, e aumenta
o número de apreensões, os traficantes mudam suas práticas. Por conta dessa
inventividade, tanto a atuação deles como a dos órgãos policiais sofrem
constantes alterações. As modalidades mais comuns são sete:
· Entrada de
pequenas quantidades pelos trabalhadores do porto ou marina.
· Embarcar via
contêiner
· Embarcar no meio
de grãos soltos
· Içar para o navio
quando está atracado
· Içar durante a
espera na área destinada aos navios que aguardam sua vez para atracar nas docas
· Içar quando já
saiu do porto, mas ainda perto da área de fundeio
· Contaminar através
de mergulho
Os procedimentos
específicos são bem diferentes. O primeiro da lista, embarque de pequenas
quantidades, foi utilizado por profissionais e amadores ainda no início dos
anos 2000. Ou seja, tanto por traficantes como por indivíduos que, através de
contatos locais, compravam a cocaína e a despachavam, ou eles mesmos levavam.
Um modelo quase artesanal de tráfico, e numa época em que o Brasil ainda não
era uma grande rota para a cocaína. Os navios eram contaminados por pessoas que
tinham acesso a ele. Muitas vezes marinheiros que pegavam a carga durante uma
breve estada nos bares do porto e nos prostíbulos ou então indivíduos que
trabalhavam no cais e levavam a bordo. Posteriormente, as dorgas eram entregues
aos encarregados de “malocá-la”, ou seja, escondê-la até a chegada ao porto de
destino. Assim, mesmo quando o transporte inicial era feito por um trabalhador
do cais, ele necessitava de cúmplices a bordo para desembarcá-la. Quando o
tráfico através do Brasil aumentou de escala, essa modalidade praticamente foi
deixada de lado.
No embarque via
contêiner, a contaminação pode se dar de maneiras diferentes. A mais comum é
adicionar a cocaína a uma mercadoria qualquer, de preferência com consistência
semelhante, antes de adentrar ao porto. Um dos problemas diz respeito ao lacre,
que pode ser substituído com relativa facilidade, considerando-se a atual
capacidade de imitação por meios eletrônicos. Vão longe os tempos em que um
carimbo ou lacre podiam garantir a inviolabilidade de algo. A outra maneira,
mais complicada e que exige maior organização interna, além de cúmplices dentro
do sistema portuário, é fazer isso depois de ele passar pelo escâner, estando
já na área reservada. Nesse caso, a contaminação só seria detectada no porto de
origem ou devido à delação de alguma testemunha ou envolvido.
Segundo
entrevistados, no início era fácil flagrar cocaína pelo escâner, porque a mercadoria
não era bem camuflada. “Qualquer um de nós perceberia que tinha alguma coisa
errada [1]”. O exemplo citado foi uma carga de pneus, onde tudo era redondinho
e no meio havia uma bolsa retangular.
Embora esse modelo
esteja sendo substituído pelo içamento ou contaminação via Sea Chest, ainda são
registradas apreensões de grande porte pela Receita Federal. Em meados de 2025,
a Receita Federal localizou 657 kg de cocaína escondidos em um carregamento de
café, e havia dois destinos possíveis. A mercadoria legal seria desembarcada na
Polônia; porém, como havia baldeação no porto de Hamburgo, poderia ocorrer de a
cocaína ser entregue na Alemanha. [2]
Uns dias antes, a
Receita Federal apreendera 1.505 quilos de cocaína em uma carga de papel. A
apreensão ocorreu, segundo a versão oficial, durante uma inspeção de rotina.
Outra versão é de que teria sido interceptada após trabalho de inteligência. Em
uma terceira, fala-se do trabalho com os cães farejadores. Na prática, as três
versões podem ser igualmente corretas, uma vez que a decisão sobre quais
contêineres devem ser inspecionados pode ser decorrência de informações obtidas
pela inteligência da Receita ou da PF. Nessa inspeção seriam usados,
provavelmente, os cães farejadores. Segundo o noticiário, os contêineres fariam
transbordo no porto de Bremerhaven, na Alemanha. A suspeita, porém, é de que a
cocaína tinha como destino o Reino Unido. [3]
O terceiro modelo, o
transporte via grãos soltos, é mais difícil, pois a mercadoria é embarcada por
esteira. Depois, passa por uma peneira, o que impossibilitaria a passagem de um
pacote. Contaminar o navio por esse meio já foi um modelo mais utilizado. Hoje
em dia, no entanto, segundo os policiais entrevistados, é um caminho
impraticável. O mesmo ocorre quando se trata de líquido, como suco de laranja,
por exemplo suco. Ao final, a peneira impede a entrada de objetos sólidos. O
que ainda se mantém é o transporte da droga no interior dos tonéis quando o
suco chega assim embalado. Mas seria uma ocorrência rara.
O içamento a bordo
já foi, e talvez ainda seja, um dos meios mais empregados. Depende de um ou
mais cúmplices a bordo, bem como de ao menos um para transportar a droga.
Existem pelo menos formas de fazê-lo durante o período em que o navio está
atracado. A mais simples seria diretamente do cais, o que implica probabilidade
maior de os traficantes serem pegos em flagrante. Já usando um barco, é
possível levar a mercadoria pelo lado oposto, que está virado para o canal, o
que foi ficando mais difícil por conta do sistema de câmeras de longo alcance
observadas pela Guarda Portuária.
Por isso foi
desenvolvido o modelo de contaminar antes da atracação do barco, no momento em
que está aguardando na área de fundeio, de cerca de 500 quilômetros quadrados
de mar, uma área quase três vezes maior do que a da Cidade de Santos. Lá os
navios esperam às vezes por dias sua vez de atracar no cais. Quando o navio
chega próximo ao porto, solicita atracação e entra na fila. Esse estacionamento
fica a distância de uns 30 até 40 km da costa. É dividido em cinco setores, por
tipo de embarcação. Ninguém tem controle da área, nem mesmo a Marinha pode fiscalizar
tudo. A fila de espera para atracar é formada por muitos navios que podem ficar
dias esperando. “Tem navio que chega a ficar 30 dias esperando a vez”, afirma
um dos entrevistados. [4]
Isso implica que os
traficantes necessitam de melhores embarcações, pois esta área fica longe da
costa. Dificilmente chegariam lá num barquinho a remo. Normalmente são
necessários pelo menos dois na embarcação, um para controlar o barco e outro
para enganchar a mercadoria, e pelo menos dois também entre a tripulação. Um ou
dois vigiando dentro da nau e outro içando a droga. A necessidade de maior
vigilância a bordo se deve ao fato de que na área de fundeio toda a tripulação
está a bordo, já no cais é possível haver períodos nos quais haja muita gente
em terra.
A cooptação de um
tripulante pode ser por apenas uma vez. Ele desembarca e é abordado num
prostíbulo [5], num shopping, num bar, etc. Outro tipo de aliciamento pode ser
feito por algum trabalhador que tenha acesso ao navio. Interagindo com a
tripulação, esse indivíduo pode cooptar alguém.
Içar após o navio
sair do porto é uma prática que já foi observada, mas é mais complicada. A
regra é que, depois de abandonar o canal, a embarcação siga direto para o alto
mar. Mas é possível e já foi observado um caso em que isso aconteceu. E só foi
descoberto por conta do localizador do navio, que mostrou para a Guarda
Portuária que ele tinha parado por motivos ignorados. Essa prática requer
cumplicidade de vários tripulantes, talvez até do capitão ou de seus oficiais.
Afinal, ninguém para sem motivo um navio já em curso.
Segundo os
entrevistados, o método mais empregado atualmente para transporte de grandes
carregamentos de drogas é o do mergulho. Isso significa que um mergulhador,
normalmente profissional, leva uma grande carga, e a insere no Sea Chest (caixa
de mar) do navio. Trata-se do local utilizado para controlar a entrada e a
saída de água em sistemas da embarcação [6]. Situado na parte traseira do
casco, é um buraco, normalmente coberto com uma grade. Ela é removida pelo
mergulhador, que coloca a mercadoria num canto e a repõe. No porto de destino,
ele mesmo, ou outro contratado, faz a coleta. A quantidade foi aos poucos
aumentando. Em 2022 foram encontrados 52 quilos em um navio graneleiro. Hoje em
dia, segundo entrevistados, as apreensões não são inferiores a cem quilos. A
maior já feita nesse sistema foi da ordem de 500 quilos.
Como a região do
canal do porto é mais vigiada, esse procedimento é mais empregado na área de
fundeio, quase sempre antes de o navio atracar. É possível constatar que esse
modelo é empregado frequentemente fazendo-se pesquisa nas águas da baia.
Encontra-se cocaína tanto na água como em mexilhões, e até mesmo em tubarões.
Isso significa que parte da carga enviada por tal método acaba por se perder no
mar e contaminar a água da Baia de Santos. [7]
A contaminação via
mergulho na área de fundeio é difícil de ser plotada porque naquele local
costumam se aproximar dos navios alguns pequenos barcos. Eles saem de regiões
próximas ao porto, normalmente favelas no Guarujá nas quais o PCC tem o
controle do tráfico. Alguns levam apenas mercadorias comuns que vendem aos
marinheiros que aguardam aportar. Outros, a cocaína. É impossível diferenciá-los
quando se está distante.
Policiais da área e
federais acreditam que não são comandados pelos mesmos traficantes que
distribuem a cocaína nas favelas de onde partiram. Um delegado entrevistado
mencionou que é evidente que os traficantes locais têm algum conhecimento das
ações, mas não são os donos da coca para exportação. Ela fica armazenada em
locais distintos daquela que é distribuída para as “biqueiras” e as informações
sobre o local, o navio e o momento são de conhecimento de um pequeno grupo,
formado pelos donos da mercadoria, pelos tripulantes dos barcos que transportam
para o fundeio e pelo mergulhador. E ninguém mais, pelo menos em princípio. [8]
Na verdade, a maior
parte das apreensões nesses casos, seja aqui ou no porto de destino, tem a ver
com alguma denúncia, que só pode ser feita por alguém com pleno conhecimento.
Isso significa que o sigilo nem sempre é mantido a ferro e fogo pelos
criminosos.
Uma das táticas para
evitar que muitos conheçam a localização da cocaína é mantê-la por pouco tempo
armazenada no Guarujá ou em Santos. Nos últimos estágios, pouco antes de
contaminar um navio, dependendo do tipo de contaminação, ela pode ser levada
para uma das favelas, aguardando embarque.
Normalmente fica
pouco tempo armazenada nesses locais. Quanto maior o período de armazenamento
por ali, maior a probabilidade de ser plotada pela polícia. Em Santos algumas
favelas se localizam praticamente dentro da área do porto. Supõe-se que de lá
partiam – ou ainda partem desses locais. Alguns barquinhos que contaminam os
barcos. Segundo a Federal, o “antro do PCC na Baixada fica na favela da Prainha
e na Aldeia”. E dentro dos outros canais há mais favelas, algumas de palafita.
Esses canais entram no território e vão longe. Outra comunidade mencionada é a
Pouca Farinha, no Guarujá, que também fica perto do porto.
Segundo os
entrevistados, muitas vezes a contaminação é feita através de barquinhos que
partem de favelas mais próximas da área do fundeio que do porto. Um dos locais
mencionados foi a praia do Perequê [9], no Guarujá, local onde existe uma área
muito frequentada por turistas, apesar de haver uma favela com cerca de 8 mil
moradores, onde o tráfico está na mão do PCC. Para comprovar a tese da
contaminação provinda desses locais nos navios, a Guarda Portuária tem imagens
de embarcações saindo de vários pontos da Baixada para ir ao encontro dos
navios, que podem levar qualquer coisa ou pessoas, incluindo traficantes e
drogas.
Um caso recente de
contaminação foi descoberto por um modelo de investigação diferente. Ocorreu
depois da partida do navio, segundo os entrevistados. O navio a ser contaminado
saiu do porto e parou novamente na área de fundeio, onde não deveria mais
parar.
Através do
monitoramento, isso foi constatado pela guarda e pela PF, que mandou o navio
voltar a atracar. Durante a inspeção acharam cocaína no Sea Chest [10]. Nesse
caso, pelo menos parte da tripulação tem de estar envolvida, porque, se o navio
estiver com a hélice funcionando e o mergulhador se aproximar, ele será sugado.
Aliás, depois de sair do porto o navio só pode ser contaminado através de
içamento, ou parando fora da área de fundeio, que não é vigiada. Alguns navios
simplesmente param depois da área de fundeio porque lá não podem jogar dejetos,
limpar o casco, jogar água de lastro que trouxeram de outro país (o que poderia
contaminar com outras espécies a fauna e a flora daqui). Legalmente, a
autoridade portuária não tem mais poder para mandar retornar, apesar de estar
em área territorial brasileira. Teria de ser uma atuação em alto mar da PF ou
da Marinha.
Atualmente, está em
fase de implantação o VTMiS (Vessel Traffic Management Information System, que
auxiliaria a controlar esse tipo de contaminação. Trata-se de um auxílio
eletrônico à navegação, com capacidade de monitoramento ativo do tráfego
aquaviário, ampliando a segurança da navegação. Do ponto de vista da segurança
portuária, porém, “esse sistema poderia identificar um caiaque se aproximando
de um navio na área de fundeio através do radar”.
O que existe
atualmente é um sistema mais simples, AIS (Sistema de Identificação
Automática), que rastreia embarcações e troca de informações sobre posição,
velocidade, rumo. Ajuda navios e estações de tráfego marítimo a compartilharem
dados, facilitando a navegação. Uma de suas principais funções seria prevenir
colisões. O problema é que, se um navio sai do porto e desliga o AIS, os órgãos
de vigilância ficam cegos a respeito de sua posição, o que permite parar e
embarcar drogas.
Esses tipos de
contaminação são os atualmente conhecidos. De uma hora para outra podem ser
substituídos por algo novo. E aí recomeça a corrida interminável de gato e rato
entre as polícias e os criminosos. Como sempre ocorre em qualquer modalidade
criminosa, aliás.
Referências:
[1] Delegado federal
[2] https://www.gov.br/receitafederal/
[3]
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia
[4] Entrevista
delegado federal.
[5] Os prostíbulos
ficam na região central da cidade, mas bem próximos do porto.
[6] Uma das
principais finalidades é o resfriamento do motor.
[7]
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/
[8] No momento de
uma das entrevistas o entrevistado revelou que naquele momento havia cerca de
70 navios esperando a vez para atracar.
[9] Não confundir com a praia do Perequê em
Ilhabela, que fica bem distante.
[10] A Constante
cobrança de segurança nos portos facilita, normalmente após suspeita capitão
autoriza busca no navio sem discutir.
Autor/Fonte: Carlos Nascimento
Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br
Edição nº339 - Página de Polícia
* Esclarecemos que a a publicação é de inteira responsabilidade do autor e do veículo que a divulgou. A nossa missão ao republicar é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto. A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor. O espaço está aberto para a manifestação das pessoas e empresas citadas nesta reportagem.










