A
investigação levou à decretação da prisão preventiva de dez suspeitos, entre
eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, o "Nikola Boros"
A Operação Narco Sky, da Polícia
Federal (PF), aponta ao menos sete missões marítimas usadas pelo crime
organizado para enviar grandes carregamentos de cocaína do Brasil para a
Europa. As ações foram comandadas, segundo a PF, por um núcleo formado por
líderes internacionais do tráfico e operadores brasileiros ligados ao Primeiro
Comando da Capital (PCC).
A investigação levou à decretação da
prisão preventiva de dez suspeitos, entre eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, o
"Nikola Boros", apontado como integrante da máfia italiana
'Ndrangheta' aliada à facção paulista.
Segundo a investigação, o esquema
tinha "elevada envergadura e especialização" e era dividido em três
núcleos. O primeiro, baseado fora do país, era responsável pelo financiamento
das operações e pelas decisões estratégicas do grupo.
O segundo atuava no comando nacional
da logística em território brasileiro, enquanto o terceiro reunia células
operacionais encarregadas do preparo, armazenamento e transporte físico da cocaína.
A investigação da Operação Narco Sky
teve origem em dados telemáticos compartilhados com a Polícia Federal por meio
de cooperação jurídica internacional. As informações, obtidas com auxílio do
Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, do
Ministério da Justiça, foram submetidas a análise pericial da PF em São Paulo.
A partir do cruzamento de mensagens,
registros digitais e comunicações criptografadas, os investigadores
reconstruíram a estrutura da organização criminosa (ORCRIM), identificaram seus
principais integrantes e mapearam as operações usadas para enviar cocaína do
Brasil à Europa.
Veja a seguir os detalhes de sete
missões marítimas do esquema internacional do tráfico de drogas, alvo da
Operação Narco Sky.
Venezia
Em 30 de agosto de 2020, o grupo
criminoso conseguiu embarcar cerca de 340 quilos de cocaína no navio Venezia,
enquanto a embarcação estava atracada no Porto de Rio Grande, no Rio Grande do
Sul. A operação, considerada de alta complexidade pela PF, foi monitorada em
tempo real por integrantes da organização.
As interceptações mostram que Marco
Aurélio de Souza, conhecido como "Lelinho", coordenava a logística da
ação a partir de São Paulo. Ele recebia atualizações constantes de Pedro Alonso
Camacho Fernandez, o "Vince", responsável por informar a chegada da
droga às proximidades do porto em um veículo terrestre.
Ambos são alvo de mandados de prisão
preventiva expedidos pela 5.ª Vara Federal de Santos.
O momento de carregar o navio com a
droga também foi acompanhado de perto pelos líderes do esquema. Segundo a PF, Alejandro
Salgado Vega, o "Tigre", participou diretamente da definição do
instante exato em que a embarcação de apoio deveria se aproximar do cargueiro,
buscando aproveitar pontos cegos ou períodos de menor vigilância no terminal
portuário.
"Tigre" também é alvo de um
pedido de prisão preventiva expedido pela Justiça.
Para os investigadores, a operação
demonstra "alta capacidade da organização criminosa de mobilizar equipes,
transportar centenas de quilos de cocaína por via terrestre e executar uma
inserção marítima de alta complexidade, revelando elevado grau de
profissionalismo e uma cadeia de comando clara e eficiente".
Panorea
A missão do grupo criminoso em março
de 2020 tinha como objetivo embarcar 500 quilos de cocaína no navio mercante
Panorea para envio ao exterior. A ação exigiu "planejamento
detalhado" e mobilização de diferentes operadores ligados à organização
criminosa internacional investigada na Operação Narco Sky.
A coordenação da logística em
território brasileiro ficou a cargo de "Lelinho", apontado nessa missão
pela PF como responsável por articular o apoio em terra, a cooptação de
tripulantes estrangeiros e a aproximação de embarcações usadas no transbordo da
droga para o navio.
As investigações mostram que a
primeira tentativa de inserção da cocaína ocorreu em 28 de março de 2020,
quando o cargueiro estava fundeado no Porto de Paranaguá, no Paraná. A operação
acabou frustrada por causa do risco de detecção. Dois dias depois, já atracado
no Porto de Santos, o grupo conseguiu concluir a contaminação da embarcação.
Apesar de o plano inicial prever o
embarque de meia tonelada de cocaína, dificuldades logísticas reduziram a carga
efetivamente colocada no navio para cerca de 80 quilos. A PF afirma que os
investigados utilizaram bolsas estanques, boias de sustentação, lanternas e
dispositivos de geolocalização para ocultar e posicionar a droga, o que
demonstraria o "elevado grau de sofisticação da operação".
Las Palmas
Dois meses depois, em maio de 2020, a
organização criminosa conseguiu esconder cerca de 14 quilos de cocaína no
compartimento do motor de um contêiner refrigerado enviado ao Porto de Las
Palmas, na Espanha. A droga foi colocada em uma área estratégica do equipamento
para dificultar a detecção por scanners e cães farejadores durante as inspeções
alfandegárias, segundo a PF.
A operação, porém, acabou
comprometida após Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra, conhecido como
"Sapão", descobrir que o contêiner havia sido selecionado para fiscalização.
Ele alertou imediatamente os demais integrantes do grupo, desencadeando uma
tentativa urgente de retirada da cocaína antes da inspeção das autoridades
espanholas.
Após receber o aviso,
"Lelinho" teria sido acionado para coordenar a remoção da droga já
dentro da área controlada do porto espanhol. A tentativa fracassou devido ao
forte esquema de segurança e ao controle de acesso no terminal portuário.
As autoridades aduaneiras da Espanha
acabaram localizando e apreendendo 14,268 quilos de cocaína no contêiner. Para
a PF, o episódio demonstrou a capacidade da organização de operar de forma
transnacional, com monitoramento remoto de cargas ilícitas em portos
estrangeiros, uso de logística especializada e comunicações criptografadas para
acompanhar as operações em tempo real.
Mobydick
Uma das principais operações do grupo
ocorreu em julho de 2020 com o uso do veleiro "Mobydick" para
transportar cocaína do litoral paulista até Las Palmas, na Espanha. A
embarcação pertencia ao mafioso sérvio Antun Mrdeza, conhecido como
"Nikola Boros" ou "John Gotti", apontado como um dos
líderes da organização criminosa investigada.
Preso desde maio de 2025 na
Venezuela, Mrdeza não atua apenas como financiador do tráfico internacional,
segundo a PF. Os investigadores afirmam que ele comanda remessas de cocaína
para a Europa, supervisiona operações, cobra resultados e investe recursos
próprios para ampliar os lucros da organização criminosa.
A Polícia Federal afirma que
relatórios de inteligência e informações obtidas com fontes internacionais
identificam o mafioso sérvio como integrante da chamada "New Drug
Trafficking Board", descrita por autoridades colombianas como um novo
centro global de comando do narcotráfico. A estrutura seria usada para
coordenar alguns dos maiores carregamentos de cocaína do mundo e já é alvo de
investigações em ao menos sete países.
O veleiro "Mobydick" era
comandado pelo capitão sueco Axel Bertil Eriksson, que atravessou o oceano até
o Brasil e chegou ao Recife em março daquele ano. Depois, seguiu para Ilhabela,
no litoral de São Paulo, onde a embarcação passou pelos preparativos finais
antes da saída rumo à Europa.
As investigações apontam que a
cocaína destinada ao "Mobydick" estava ligada a uma carga de 490,8
quilos da droga apreendida pelas autoridades brasileiras em uma aeronave
PT-RAS, em Fernandópolis, no interior paulista.
Para a PF, a conexão revelou uma
cadeia logística sofisticada, na qual a cocaína era transportada por via aérea
até pontos de armazenamento no interior do País e depois levada ao litoral para
exportação marítima. A carga, segundo a PF, pertencia ao Primeiro Comando da
Capital (PCC).
A apreensão da droga e problemas
técnicos no veleiro atrasaram a partida da embarcação e provocaram atritos
entre integrantes brasileiros da organização e o capitão estrangeiro. Após
reorganizar a operação e recompor a carga ilícita, o grupo conseguiu concluir o
embarque da cocaína e iniciar a travessia em 30 de julho de 2020.
Segundo a PF, a operação no Brasil
contou com uma ampla estrutura de apoio em terra coordenada por
"Lelinho". Também integravam o núcleo logístico "Sapão",
Walter Pires Junior, conhecido como "Waltinho", e Klaus de Castro
Rios Motta e Silva, responsáveis por fornecer suporte operacional para a
preparação e saída da embarcação rumo à Europa.
Praia do Góes
Uma apreensão realizada na Praia do
Góes, no Guarujá, em julho de 2020, atingiu diretamente a estrutura de
armazenamento da organização criminosa no Brasil. Segundo a PF a operação
revelou um imóvel usado como entreposto da quadrilha e resultou na apreensão de
321 quilos de pasta base de cocaína.
As investigações apontam que a droga
estava sob responsabilidade direta de "Lelinho", descrito pela PF
como responsável pela segurança e pela gestão do estoque de entorpecentes no País.
A carga pertenceria a diferentes
integrantes da cúpula do esquema, entre eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, e
Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", que teriam cobrado explicações de
"Lelinho" após a perda da droga.
A PF afirma que a primeira ação
policial não encontrou todo o entorpecente porque a cocaína estava dividida
entre dois imóveis distintos. Ao perceber que parte da carga ainda não havia
sido localizada, "Lelinho" teria reagido rapidamente para evitar
novas perdas.
Segundo os investigadores, ele acionou
imediatamente seus homens de confiança, "Waltinho", e Klaus de Castro
Rios Motta e Silva, ordenando a retirada e ocultação de 219 tijolos de cocaína
que estavam em deslocamento para São Sebastião, no litoral paulista. A operação
de retirada foi concluída com sucesso, episódio que, para a PF, demonstrou a
capacidade de reação da organização criminosa e a autoridade exercida por
"Lelinho" dentro do grupo.
Adrienne
Segundo a Polícia Federal, a
organização criminosa tentou resgatar cerca de 175 quilos de cocaína
transportados pelo navio Adrienne na região da Calábria, na Itália, em uma
operação internacional monitorada em tempo real pelos integrantes do grupo. A
estratégia consistia em esconder a droga em um compartimento selado do
cargueiro ainda no Brasil para, depois, recuperar a carga ilícita em alto-mar
durante a rota europeia da embarcação.
As investigações apontam que Pedro
Alonso Camacho Fernandez, o "Vince", era o principal responsável pela
coordenação da operação no território europeu. Segundo a PF, ele mantinha
contato direto com tripulantes do navio e com as equipes encarregadas do
resgate da droga, transmitindo coordenadas de GPS e instruções operacionais
detalhadas para os integrantes posicionados no oceano.
A apuração também identificou a criação
de um grupo específico na plataforma criptografada SKY ECC voltado
exclusivamente à coordenação da operação de resgate. A ação era acompanhada de
perto pelos líderes Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", e o mafioso
sérvio Antun Mrdeza, apontados como coproprietários da carga de cocaína.
Apesar da estrutura montada pela
organização criminosa, o resgate fracassou. As autoridades italianas
conseguiram localizar e apreender 216,68 quilos de cocaína a bordo do navio
Adrienne quando a embarcação estava atracada no Porto de Ancona, na Itália.
Barbara
O chamado "Evento Barbara"
repetiu o mesmo modelo operacional usado pela organização criminosa em outras
remessas internacionais de cocaína. O plano previa o embarque de cerca de 300
quilos da droga no navio Barbara e posterior resgate da carga em alto-mar
durante a rota europeia da embarcação.
As investigações apontam que a
inserção da cocaína no cargueiro foi coordenada por Pedro Alonso Camacho
Fernandez, o "Vince", em parceria com Antônio Greg Ribeiro Pinheiro,
conhecido como "Fisherman". Já a etapa de recuperação da droga no exterior
teria sido supervisionada novamente por Alejandro Salgado Vega, o
"Tigre".
Segundo a PF, a missão acabou afetada
após a apreensão de cocaína no "Evento Adrienne", ocorrido anteriormente
no Porto de Ancona, na Itália. A ação das autoridades italianas teria provocado
pânico entre os tripulantes do navio Barbara, levando o capitão da embarcação a
ordenar que as bolsas contendo a droga fossem lançadas ao mar antes da
aproximação da equipe encarregada do resgate.
Após o descarte da carga, os
integrantes da organização tentaram localizar a cocaína no oceano, mas sem
sucesso. De acordo com a PF, "Vince" chegou a usar um cartão de
crédito em seu próprio nome para ativar o sistema de GPS instalado nas bolsas
usadas para rastrear a droga, porém o equipamento não foi encontrado.
Dias depois, em outubro de 2020,
autoridades europeias registraram a descoberta de 300 pacotes de cocaína
encontrados por banhistas na praia de Borssele, na província da Zelândia, na
Holanda. A PF aponta que a carga tinha ligação direta com a operação frustrada
envolvendo o navio Barbara.
Fonte: Estadão Conteúdo
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