Um bancário universitário acabou cercado por tripulantes
dentro de um navio — sem nem saber direito onde estava se metendo
No início da década
de 80, eu trabalhava como caixa de banco no período da manhã e estudava à noite
numa universidade da cidade.
Durante uma aula, um
colega virou pra mim e falou:
— Carvalhal, abriu
concurso na Receita Federal. Bora se inscrever?
— Pra quê?
— AVR — Auxiliar de
Vigilância e Repressão.
— E faz o quê?
— Sei lá… trabalha
no porto.
— Então bora.
Me inscrevi sem
muita pretensão. Já tinha emprego. A intenção seria treinar pra depois tentar
entrar na Polícia Federal ou virar fiscal da própria Receita.
Passei.
Fiz um treinamento
rápido, coisa de uma semana, no prédio da Alfândega.
Na semana seguinte,
já estava no cais — sem nem saber direito onde estava pisando.
Logo no primeiro dia
fui escalado pra trabalhar a bordo de um navio atracado no cais do Saboó.
Detalhe: eu nem
sabia onde ficava o Saboó.
Peguei um ônibus que
nem chegava perto do cais e ainda tive que completar o caminho a pé, passando
por uma área conhecida como Cracolândia.
Comecei bem…
Já a bordo, o vigia
me chamou:
— AVR, passaram a
fita de que tá rolando uma “barrigada” de óculos Ray-Ban.
Na minha total inocência:
— Barrigada? O que é
isso?
Ele explicou:
— Os caras estão
saindo com os óculos escondidos na barriga.
Esses óculos eram
moda na época, caros e difíceis de conseguir.
Fui pra escada do
navio e comecei a revistar todo mundo que descia.
Os estivadores ficaram
meio sem entender, porque aquilo não era comum.
Mas, pra minha
sorte, respeitaram a autoridade que eu representava.
Se fosse hoje,
talvez a história fosse outra…
Resultado: não achei
um óculos sequer.
Algum tempo depois,
fui escalado para um navio, atracado no cais onde hoje está instalado o Parque
Valongo.
Durante uma ronda
pelo convés, notei uma corda pendurada do lado do mar.
Sem rádio, fui até a
proa e gritei pra um colega em outra embarcação:
— Keno! Keno! Vem
aqui, achei uma corda do lado do mar!
— Tô indo,
Carvalhal!
Keno era mais
experiente, descendente de japoneses, olho clínico pra esse tipo de coisa.
Assim que chegou,
bateu o olho e falou:
— Essa corda é pra uma
arriada. Tem mercadoria escondida por aí.
E não deu outra.
Juntos, realizamos
uma inspeção e encontramos alguns sacos, com várias caixas dentro.
Era apreensão na
certa.
Só que não deu nem
tempo de comemorar.
Em poucos segundos,
vários tripulantes começaram a nos cercar.
A situação ficou
tensa.
Sem ter pra onde
correr, ficamos de costas um pro outro, estilo filme, tipo Indiana Jones,
tentando se proteger.
Alguns estivadores a
cena e avisaram o vigia, que acionou o plantão da Receita Federal.
Uma viatura chegou
ao costado do navio.
Mas os tripulantes tinham
levantado à escada.
Ninguém subia.
Ninguém descia.
A coisa ficou feia.
Foi aí que acionaram
a Polícia Federal.
Os agentes chegaram
e já desceram da viatura com arma em punho.
Apontaram pros
tripulantes e gritaram:
— Lower the ladder!
Baixa a escada!
Na hora, a escada
foi arriada.
Os agentes subiram e
finalmente conseguimos sair daquela situação.
Foi por pouco.
Essa acabou sendo
minha primeira apreensão.
Dentro dos sacos
havia várias caixas de serras — aquelas usadas em arco de serra.
Produto brasileiro,
que estava sendo desviado antes de seguir ao exterior.
Os tripulantes foram
levados para a sede da Polícia Federal para prestar depoimento.
E o material foi
encaminhado para a Alfândega.
Lá, tivemos que
contar uma por uma das serras pra formalizar a apreensão.
Anos depois, já na
Guarda Portuária, fui apresentar uma ocorrência no 1º Distrito, no Palácio da
Polícia.
E quem eu encontro?
O Keno.
Meu parceiro daquela
confusão toda estava lá. Após terminar o contrato na Receita Federal ele prestou concurso para investigador na Polícia Civil.
A gente se olhou,
deu risada…
E lembrou:
— Rapaz… naquele dia
a gente quase ficou por lá.
Moral da história:
no cais, quem não tem experiência aprende rápido — porque o risco não espera
ninguém ficar pronto.
Texto: Carlos Carvalhal
Ilustração: Gerada por IA — Inteligência Artificial.
* Esta é uma história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os
nomes dos envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é
100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto.
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