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GUARDA PORTUÁRIA INICIA TREINAMENTO DA PLATAFORMA MURALHA DIGITAL NO PORTO DE SANTOS

Sistema utiliza tecnologias de monitoramento e inteligência para apoiar a gestão operacional e a segurança portuária A Guarda Portuária da...

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

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TRÁFICO NO PORTO DE SANTOS 4 – O MODUS OPERANDI DOS TRAFICANTES

O termo normalmente utilizado pelas polícias quando se referem a um navio que transporta cocaína é de que ele está “contaminado”

O método mais empregado atualmente para transporte de grandes carregamentos de drogas é o do mergulho. Conforme apuração, as apreensões não são inferiores a cem quilos. A maior já feita nesse sistema foi da ordem de 500 quilos. Por Guaracy Mingardi.

Guaracy Mingardi - Doutor em Ciência Política e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O termo normalmente utilizado pelas polícias quando se referem a um navio que transporta cocaína é de que ele está “contaminado”. E evitar a contaminação é tarefa muito difícil. Isso se deve ao fato de que sempre que um modelo se torna muito conhecido, e aumenta o número de apreensões, os traficantes mudam suas práticas. Por conta dessa inventividade, tanto a atuação deles como a dos órgãos policiais sofrem constantes alterações. As modalidades mais comuns são sete:

· Entrada de pequenas quantidades pelos trabalhadores do porto ou marina.

· Embarcar via contêiner

· Embarcar no meio de grãos soltos

· Içar para o navio quando está atracado

· Içar durante a espera na área destinada aos navios que aguardam sua vez para atracar nas docas

· Içar quando já saiu do porto, mas ainda perto da área de fundeio

· Contaminar através de mergulho

Os procedimentos específicos são bem diferentes. O primeiro da lista, embarque de pequenas quantidades, foi utilizado por profissionais e amadores ainda no início dos anos 2000. Ou seja, tanto por traficantes como por indivíduos que, através de contatos locais, compravam a cocaína e a despachavam, ou eles mesmos levavam. Um modelo quase artesanal de tráfico, e numa época em que o Brasil ainda não era uma grande rota para a cocaína. Os navios eram contaminados por pessoas que tinham acesso a ele. Muitas vezes marinheiros que pegavam a carga durante uma breve estada nos bares do porto e nos prostíbulos ou então indivíduos que trabalhavam no cais e levavam a bordo. Posteriormente, as dorgas eram entregues aos encarregados de “malocá-la”, ou seja, escondê-la até a chegada ao porto de destino. Assim, mesmo quando o transporte inicial era feito por um trabalhador do cais, ele necessitava de cúmplices a bordo para desembarcá-la. Quando o tráfico através do Brasil aumentou de escala, essa modalidade praticamente foi deixada de lado.

No embarque via contêiner, a contaminação pode se dar de maneiras diferentes. A mais comum é adicionar a cocaína a uma mercadoria qualquer, de preferência com consistência semelhante, antes de adentrar ao porto. Um dos problemas diz respeito ao lacre, que pode ser substituído com relativa facilidade, considerando-se a atual capacidade de imitação por meios eletrônicos. Vão longe os tempos em que um carimbo ou lacre podiam garantir a inviolabilidade de algo. A outra maneira, mais complicada e que exige maior organização interna, além de cúmplices dentro do sistema portuário, é fazer isso depois de ele passar pelo escâner, estando já na área reservada. Nesse caso, a contaminação só seria detectada no porto de origem ou devido à delação de alguma testemunha ou envolvido.

Segundo entrevistados, no início era fácil flagrar cocaína pelo escâner, porque a mercadoria não era bem camuflada. “Qualquer um de nós perceberia que tinha alguma coisa errada [1]”. O exemplo citado foi uma carga de pneus, onde tudo era redondinho e no meio havia uma bolsa retangular.

Embora esse modelo esteja sendo substituído pelo içamento ou contaminação via Sea Chest, ainda são registradas apreensões de grande porte pela Receita Federal. Em meados de 2025, a Receita Federal localizou 657 kg de cocaína escondidos em um carregamento de café, e havia dois destinos possíveis. A mercadoria legal seria desembarcada na Polônia; porém, como havia baldeação no porto de Hamburgo, poderia ocorrer de a cocaína ser entregue na Alemanha. [2]

Uns dias antes, a Receita Federal apreendera 1.505 quilos de cocaína em uma carga de papel. A apreensão ocorreu, segundo a versão oficial, durante uma inspeção de rotina. Outra versão é de que teria sido interceptada após trabalho de inteligência. Em uma terceira, fala-se do trabalho com os cães farejadores. Na prática, as três versões podem ser igualmente corretas, uma vez que a decisão sobre quais contêineres devem ser inspecionados pode ser decorrência de informações obtidas pela inteligência da Receita ou da PF. Nessa inspeção seriam usados, provavelmente, os cães farejadores. Segundo o noticiário, os contêineres fariam transbordo no porto de Bremerhaven, na Alemanha. A suspeita, porém, é de que a cocaína tinha como destino o Reino Unido. [3]

O terceiro modelo, o transporte via grãos soltos, é mais difícil, pois a mercadoria é embarcada por esteira. Depois, passa por uma peneira, o que impossibilitaria a passagem de um pacote. Contaminar o navio por esse meio já foi um modelo mais utilizado. Hoje em dia, no entanto, segundo os policiais entrevistados, é um caminho impraticável. O mesmo ocorre quando se trata de líquido, como suco de laranja, por exemplo suco. Ao final, a peneira impede a entrada de objetos sólidos. O que ainda se mantém é o transporte da droga no interior dos tonéis quando o suco chega assim embalado. Mas seria uma ocorrência rara.

O içamento a bordo já foi, e talvez ainda seja, um dos meios mais empregados. Depende de um ou mais cúmplices a bordo, bem como de ao menos um para transportar a droga. Existem pelo menos formas de fazê-lo durante o período em que o navio está atracado. A mais simples seria diretamente do cais, o que implica probabilidade maior de os traficantes serem pegos em flagrante. Já usando um barco, é possível levar a mercadoria pelo lado oposto, que está virado para o canal, o que foi ficando mais difícil por conta do sistema de câmeras de longo alcance observadas pela Guarda Portuária.

Por isso foi desenvolvido o modelo de contaminar antes da atracação do barco, no momento em que está aguardando na área de fundeio, de cerca de 500 quilômetros quadrados de mar, uma área quase três vezes maior do que a da Cidade de Santos. Lá os navios esperam às vezes por dias sua vez de atracar no cais. Quando o navio chega próximo ao porto, solicita atracação e entra na fila. Esse estacionamento fica a distância de uns 30 até 40 km da costa. É dividido em cinco setores, por tipo de embarcação. Ninguém tem controle da área, nem mesmo a Marinha pode fiscalizar tudo. A fila de espera para atracar é formada por muitos navios que podem ficar dias esperando. “Tem navio que chega a ficar 30 dias esperando a vez”, afirma um dos entrevistados. [4]

Isso implica que os traficantes necessitam de melhores embarcações, pois esta área fica longe da costa. Dificilmente chegariam lá num barquinho a remo. Normalmente são necessários pelo menos dois na embarcação, um para controlar o barco e outro para enganchar a mercadoria, e pelo menos dois também entre a tripulação. Um ou dois vigiando dentro da nau e outro içando a droga. A necessidade de maior vigilância a bordo se deve ao fato de que na área de fundeio toda a tripulação está a bordo, já no cais é possível haver períodos nos quais haja muita gente em terra.

A cooptação de um tripulante pode ser por apenas uma vez. Ele desembarca e é abordado num prostíbulo [5], num shopping, num bar, etc. Outro tipo de aliciamento pode ser feito por algum trabalhador que tenha acesso ao navio. Interagindo com a tripulação, esse indivíduo pode cooptar alguém.

Içar após o navio sair do porto é uma prática que já foi observada, mas é mais complicada. A regra é que, depois de abandonar o canal, a embarcação siga direto para o alto mar. Mas é possível e já foi observado um caso em que isso aconteceu. E só foi descoberto por conta do localizador do navio, que mostrou para a Guarda Portuária que ele tinha parado por motivos ignorados. Essa prática requer cumplicidade de vários tripulantes, talvez até do capitão ou de seus oficiais. Afinal, ninguém para sem motivo um navio já em curso.

Segundo os entrevistados, o método mais empregado atualmente para transporte de grandes carregamentos de drogas é o do mergulho. Isso significa que um mergulhador, normalmente profissional, leva uma grande carga, e a insere no Sea Chest (caixa de mar) do navio. Trata-se do local utilizado para controlar a entrada e a saída de água em sistemas da embarcação [6]. Situado na parte traseira do casco, é um buraco, normalmente coberto com uma grade. Ela é removida pelo mergulhador, que coloca a mercadoria num canto e a repõe. No porto de destino, ele mesmo, ou outro contratado, faz a coleta. A quantidade foi aos poucos aumentando. Em 2022 foram encontrados 52 quilos em um navio graneleiro. Hoje em dia, segundo entrevistados, as apreensões não são inferiores a cem quilos. A maior já feita nesse sistema foi da ordem de 500 quilos.

Como a região do canal do porto é mais vigiada, esse procedimento é mais empregado na área de fundeio, quase sempre antes de o navio atracar. É possível constatar que esse modelo é empregado frequentemente fazendo-se pesquisa nas águas da baia. Encontra-se cocaína tanto na água como em mexilhões, e até mesmo em tubarões. Isso significa que parte da carga enviada por tal método acaba por se perder no mar e contaminar a água da Baia de Santos. [7]

A contaminação via mergulho na área de fundeio é difícil de ser plotada porque naquele local costumam se aproximar dos navios alguns pequenos barcos. Eles saem de regiões próximas ao porto, normalmente favelas no Guarujá nas quais o PCC tem o controle do tráfico. Alguns levam apenas mercadorias comuns que vendem aos marinheiros que aguardam aportar. Outros, a cocaína. É impossível diferenciá-los quando se está distante.

Policiais da área e federais acreditam que não são comandados pelos mesmos traficantes que distribuem a cocaína nas favelas de onde partiram. Um delegado entrevistado mencionou que é evidente que os traficantes locais têm algum conhecimento das ações, mas não são os donos da coca para exportação. Ela fica armazenada em locais distintos daquela que é distribuída para as “biqueiras” e as informações sobre o local, o navio e o momento são de conhecimento de um pequeno grupo, formado pelos donos da mercadoria, pelos tripulantes dos barcos que transportam para o fundeio e pelo mergulhador. E ninguém mais, pelo menos em princípio. [8]

Na verdade, a maior parte das apreensões nesses casos, seja aqui ou no porto de destino, tem a ver com alguma denúncia, que só pode ser feita por alguém com pleno conhecimento. Isso significa que o sigilo nem sempre é mantido a ferro e fogo pelos criminosos.

Uma das táticas para evitar que muitos conheçam a localização da cocaína é mantê-la por pouco tempo armazenada no Guarujá ou em Santos. Nos últimos estágios, pouco antes de contaminar um navio, dependendo do tipo de contaminação, ela pode ser levada para uma das favelas, aguardando embarque.

Normalmente fica pouco tempo armazenada nesses locais. Quanto maior o período de armazenamento por ali, maior a probabilidade de ser plotada pela polícia. Em Santos algumas favelas se localizam praticamente dentro da área do porto. Supõe-se que de lá partiam – ou ainda partem desses locais. Alguns barquinhos que contaminam os barcos. Segundo a Federal, o “antro do PCC na Baixada fica na favela da Prainha e na Aldeia”. E dentro dos outros canais há mais favelas, algumas de palafita. Esses canais entram no território e vão longe. Outra comunidade mencionada é a Pouca Farinha, no Guarujá, que também fica perto do porto.

Segundo os entrevistados, muitas vezes a contaminação é feita através de barquinhos que partem de favelas mais próximas da área do fundeio que do porto. Um dos locais mencionados foi a praia do Perequê [9], no Guarujá, local onde existe uma área muito frequentada por turistas, apesar de haver uma favela com cerca de 8 mil moradores, onde o tráfico está na mão do PCC. Para comprovar a tese da contaminação provinda desses locais nos navios, a Guarda Portuária tem imagens de embarcações saindo de vários pontos da Baixada para ir ao encontro dos navios, que podem levar qualquer coisa ou pessoas, incluindo traficantes e drogas.

Um caso recente de contaminação foi descoberto por um modelo de investigação diferente. Ocorreu depois da partida do navio, segundo os entrevistados. O navio a ser contaminado saiu do porto e parou novamente na área de fundeio, onde não deveria mais parar.

Através do monitoramento, isso foi constatado pela guarda e pela PF, que mandou o navio voltar a atracar. Durante a inspeção acharam cocaína no Sea Chest [10]. Nesse caso, pelo menos parte da tripulação tem de estar envolvida, porque, se o navio estiver com a hélice funcionando e o mergulhador se aproximar, ele será sugado. Aliás, depois de sair do porto o navio só pode ser contaminado através de içamento, ou parando fora da área de fundeio, que não é vigiada. Alguns navios simplesmente param depois da área de fundeio porque lá não podem jogar dejetos, limpar o casco, jogar água de lastro que trouxeram de outro país (o que poderia contaminar com outras espécies a fauna e a flora daqui). Legalmente, a autoridade portuária não tem mais poder para mandar retornar, apesar de estar em área territorial brasileira. Teria de ser uma atuação em alto mar da PF ou da Marinha.

Atualmente, está em fase de implantação o VTMiS (Vessel Traffic Management Information System, que auxiliaria a controlar esse tipo de contaminação. Trata-se de um auxílio eletrônico à navegação, com capacidade de monitoramento ativo do tráfego aquaviário, ampliando a segurança da navegação. Do ponto de vista da segurança portuária, porém, “esse sistema poderia identificar um caiaque se aproximando de um navio na área de fundeio através do radar”.

O que existe atualmente é um sistema mais simples, AIS (Sistema de Identificação Automática), que rastreia embarcações e troca de informações sobre posição, velocidade, rumo. Ajuda navios e estações de tráfego marítimo a compartilharem dados, facilitando a navegação. Uma de suas principais funções seria prevenir colisões. O problema é que, se um navio sai do porto e desliga o AIS, os órgãos de vigilância ficam cegos a respeito de sua posição, o que permite parar e embarcar drogas.

Esses tipos de contaminação são os atualmente conhecidos. De uma hora para outra podem ser substituídos por algo novo. E aí recomeça a corrida interminável de gato e rato entre as polícias e os criminosos. Como sempre ocorre em qualquer modalidade criminosa, aliás.

Referências:

[1] Delegado federal

[2] https://www.gov.br/receitafederal/

[3] https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia

[4] Entrevista delegado federal.

[5] Os prostíbulos ficam na região central da cidade, mas bem próximos do porto.

[6] Uma das principais finalidades é o resfriamento do motor.

[7] https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/

[8] No momento de uma das entrevistas o entrevistado revelou que naquele momento havia cerca de 70 navios esperando a vez para atracar.

 [9] Não confundir com a praia do Perequê em Ilhabela, que fica bem distante.

[10] A Constante cobrança de segurança nos portos facilita, normalmente após suspeita capitão autoriza busca no navio sem discutir.

Autor/Fonte: Carlos Nascimento 

Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br 

          Edição nº339  - Página de Polícia

          

* Esclarecemos que a a publicação é de inteira responsabilidade do autor e do veículo que a divulgou. A nossa missão ao republicar é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto. A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor.  O espaço está aberto para a manifestação das pessoas e empresas citadas nesta reportagem.     

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

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CONDENADO POR TRÁFICO COM BASE NO PORTO DE SANTOS USOU ESQUEMA DE ‘COMPRA DE DINHEIRO’

 

Ygor Daniel Zago, o Hulk, foi condenado por tráfico internacional de drogas após operação que apreendeu 3,7 toneladas de cocaína no Porto de Santos.

Apontado como coordenador de um esquema que trocava dinheiro vivo por transferências bancárias, o empresário Eduardo Moreno Lopes fez depósitos a empresas que seriam operadas por Ygor Daniel Zago, o Hulk, condenado por tráfico internacional de drogas em um esquema que tinha como base o Porto de Santos, e apontado como integrante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). É o que diz um relatório policial e uma denúncia protocolada pelo MP-SP (Ministério Público de São Paulo).

Evidências das transações financeiras entre os dois foram encontradas no celular do dono de uma loja de carros de luxo, Manoel Sérgio Sanches, que serviu de intermediário. Ele se entregou à polícia em dezembro, está preso e é réu sob acusação de organização criminosa e lavagem de dinheiro.

O esquema supostamente liderado por Eduardo Lopes foi alvo de uma denúncia do MP-SP no fim de agosto. Segundo o documento, empresários recebiam grandes quantidades de dinheiro em espécie e, em contrapartida, faziam transferências bancárias, um serviço clandestino chamado pelos próprios envolvidos de “compra de dinheiro”.

O escritório TFV Advogados, que defende Lopes, afirma que ele “refuta completamente as acusações” e que a denúncia foi feita “com base numa investigação incompleta e parcial”.

Diz também que a denúncia foi feita sem ouvi-lo, mesmo que ele tenha se oferecido para prestar depoimento quatro vezes. Lopes tem prisão decretada e é considerado foragido da Justiça.

R$ 900 mil

De acordo com a denúncia do MP-SP, Lopes fez transferências de um total de R$ 900 mil a contas bancárias de duas empresas indicadas por Zago. As transferências ocorreram em quatro ocasiões, num intervalo de 35 dias. As empresas indicadas já foram apontadas em investigações anteriores da Polícia Federal.

“As ordens, os valores, os fracionamentos e os comprovantes bancários estão registrados, minuto a minuto, nas conversas extraídas dos aparelhos apreendidos”, diz trecho da denúncia. “Em vários trechos é possível acompanhar a ordem sendo dada por Ygor, repassada por Manoel e executada por Eduardo, com intervalo de segundos entre uma etapa e outra e, horas depois, o comprovante da transferência voltando pelo mesmo caminho.”

Relatórios policiais apontam que Zago é suspeito de liderar uma quadrilha que adulterava combustíveis com metanol — ele foi alvo da Operação Boyle, que deu origem à Carbono Oculto. Além disso, foi condenado a 29 anos de prisão por tráfico internacional de drogas, em um esquema que tinha como base o Porto de Santos.

Por telefone, Zago disse à Folha que qualquer relação financeira entre ele e Sanches diz respeito apenas a compra e venda de carros. Ele afirmou que não conhece Lopes e que desconhecia a investigação da Falsa Las Vegas até a última quinta-feira (3), quando foi procurado pela reportagem.

Afirmou também que sofre perseguição sistemática desde 2008, quando denunciou policiais corruptos do Denarc (Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes) num caso que resultou na exoneração de um delegado e na punição contra outros agentes, e que isso explica as acusações contra ele.

Seu advogado, Isaac Minichillo de Araújo, acrescentou que Zago nunca foi integrante de uma organização criminosa. Procurado por email desde a última quinta, o advogado de Sanches não respondeu até a publicação desta reportagem.

As empresas usadas por Lopes para fazer os pagamentos são as mesmas que aparecem nas investigações da Operação Falsa Las Vegas, que resultou na denúncia contra ele por crime organizado e lavagem de dinheiro.

Lopes não era sócio das firmas, mas controlava as contas bancárias, diz a polícia.

Levantamento da investigação mostra que a maior parte das transferências — num total de R$ 497 mil — ocorreu poucas horas após o envio dos dados bancários via aplicativo de mensagens.

Eram cobradas comissões que variavam de 1,5% a 4% pelas operações de troca de dinheiro em espécie por transferências, apontam mensagens encontradas nos celulares dos investigados. A origem do dinheiro seria o tráfico de drogas e a exploração de jogos de azar na região metropolitana de São Paulo, além de outros crimes, segundo a investigação.

Zago foi preso em Portugal em novembro do ano passado por ter um mandado de prisão em aberto expedido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. 

Ele foi liberado em maio deste ano, após o prazo para mantê-lo preso se encerrar. Desde então, segundo sua defesa, cumpre medida cautelar, mantém-se em endereço conhecido das autoridades e foi autorizado por um juiz brasileiro a participar de audiências por videoconferência.

Sua condenação por tráfico internacional resultou da Operação Hulk, que apreendeu um total de 3,7 toneladas de cocaína no Porto de Santos entre 2013 e 2014. A defesa recorreu e conseguiu uma decisão que permitiu que ele respondesse em liberdade até a conclusão do caso.

Autor/Fonte: Rogério Pagnan e Tulio Kruse/Folhapress


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TRÁFICO NO PORTO DE SANTOS 3 – O COMBATE AO CRIME NAS INSTALAÇÕES PORTUÁRIAS

Existem quatro instituições que repartem a tarefa de combater o tráfico no porto de Santos

A Polícia Civil pode apreender drogas fora da área do porto e o inquérito pode ser tocado por ela. Quando já dentro do sistema portuário, as atribuições passam a pertencer exclusivamente à Polícia Federal. Por Guaracy Mingardi.

Guaracy Mingardi - Doutor em Ciência Política e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Existem quatro instituições que repartem a tarefa de combater o tráfico no porto de Santos. A investigação é feita pela Polícia Civil paulista e pela Polícia Federal, e a parte de policiamento corresponde à Guarda Portuária e à Receita Federal.

Comecemos pelas duas primeiras.

O Primeiro Comando da Capital não era uma das prioridades da PF desde o início. Já a Civil, desde 2001/2, e principalmente após os ataques de 2006, tinha um trabalho estruturado sobre essa organização. Estabeleceram uma rede de informantes e plotaram inúmeros telefones para vigiar o PCC. Através desse monitoramento, foram os primeiros a perceber a entrada paulatina de membros dessa organização no tráfico no porto de Santos.

Através de informantes, chegaram a alguns dos traficantes com a droga a caminho do porto ou com ela “malocada” em algum ponto da Grande São Paulo ou no litoral. Durante a década de 2010/20 prenderam vários traficantes e apreenderam droga destinada ao exterior. Sempre fora da área portuária, onde não tem jurisdição.

Seu modelo de atuação se parecia muito com aquele que utilizava para prender traficantes que embarcavam cocaína no aeroporto de Cumbica. Através de informantes chegaram até umas “mulas” e a uns poucos de maior escalão. A partir de então mantiveram sob vigilância hotéis onde se hospedavam alguns. E que eram detidos quando chegavam ao estacionamento.

No caso do porto, foram identificados alguns traficantes de baixo escalão, e espionados, normalmente via “gansos” (informantes), além de terem seus telefones monitorados. Através dessa metodologia conseguiam chegar aos que transportavam a droga antes que entrassem no porto. E com alguma frequência ir até o local onde ela era guardada, e aí realizavam a apreensão. Já as prisões podiam ou não ocorrer nesse local [1]. Outra fonte de informações era constituída por criminosos de certa forma ligados ao PCC, e que procuravam policiais com os quais tinham algum tipo de contato, informando sobre possíveis partidas a caminho do porto [2].

Outra forma de atuação foi a prisão de André do Rap, procurado por tráfico internacional, em 15/09/2019. O noticiário diz que a Polícia Civil paulista teria chegado até ele através de uma informação de um indivíduo que morava em uma mansão em Angra dos Reis. Isso é no mínimo duvidoso. Por que alguém chamaria a polícia paulista para denunciar alguém que morava no Rio de Janeiro? A versão não oficial, revelada por um ex-delegado geral, diz que ele foi entregue por outro criminoso, informante dos policiais. Ou seja, um caso que mostra um modelo de atuação baseado no uso de informantes e no conhecimento de sua “clientela”. [3]

Um caso mais recente ocorreu em 15/07/2024. A PC apreendeu cerca de meia tonelada de cocaína em um terminal de contêineres em Cubatão. A droga estava escondida em um carregamento de açúcar numa empresa encarregada de embalar mercadorias. Nas reportagens é mencionado que o 1º Distrito de Polícia de Cubatão recebeu denúncia de pessoas que trabalhavam no local de que haveria atividades suspeitas. Em sua vistoria, os policiais encontraram 11 sacos de cocaína, contendo 550 quilos[4]. Ou seja, dependeu mais de uma denúncia do que de investigação propriamente dita, ao contrário da tipologia mencionada anteriormente. [5]

Já a Polícia Federal tinha expertise sobre o tráfico nos portos, mas não sobre o PCC. Só teria começado a se debruçar sobre a organização criminosa em 2010, como mencionaram alguns entrevistados. Passou a conhecer os líderes, estabelecer sua rede própria de informantes e selecionar indivíduos considerados importantes para a organização. E aos poucos foi assumindo a maior parte do trabalho investigativo relativo ao tráfico por via marítima. Não apenas no porto, mas atuando em vários locais sobre traficantes que usavam essa rota.

Outro fator que devemos considerar antes de discutir o trabalho da PF é que ela tem atuação exclusiva de polícia judiciária em determinadas áreas. Portos, por exemplo. Ou seja, praticamente todo inquérito que envolva apreensão de drogas no sistema portuário de Santos acaba caindo em suas mãos. A Polícia Civil pode apreender drogas fora dessa área e o inquérito pode ser tocado pela PC. Quando já dentro do sistema portuário, o inquérito e as possíveis prisões são de atribuição exclusiva da Federal.

Gradativamente estabeleceram uma rede de informantes. E foram identificando as ligações de cada suspeito num trabalho de bola de neve, no qual um deles levava a outro, esse a mais um, e assim por diante. Outra fonte de informações importante disponível para a PF é formada pelas adidâncias que tem em outros países, com as quais trocam informações. Uma apreensão em Roterdã, por exemplo, poderia render dados sobre os traficantes atuando em território brasileiro e/ou suas ligações aqui.

Um exemplo do trabalho da PF pode ser visto em uma operação chamada Taeguk, de novembro de 2024. Nela a Federal visou à detenção de traficantes ligados ao PCC que traficavam cocaína para Europa e Àsia, segundo o noticiário.

Na operação foram utilizados quase 200 policiais, expedidos dez mandados de prisão e quase 40 de busca e apreensão em vários estados. A amplitude dessa ação mostra a diferença das operações da PF para com as da Polícia Civil. Não somente eles empregaram uma grande quantidade de agentes e delegados, mas também agiram simultaneamente em várias cidades. Além de um planejamento prolongado e minucioso. E com ações do tipo foram aos poucos assumindo maior protagonismo na repressão ao tráfico no porto. [6]

Segundo os entrevistados, algumas das vezes chega uma informação tardia, quando o navio já saiu do porto e está em águas internacionais ou perto dela. Nesses casos passam a informação para o país destinatário através da adidância policial. Isso ocorre principalmente com países europeus, com os quais os contatos são maiores.

A equipe da Federal destinada ao combate ao tráfico em Santos é relativamente pequena, segundo informaram fontes de fora da instituição. E não se destina exclusivamente ao porto, mas a todas as cidades da área. Porém muitas investigações são feitas diretamente de Brasília, ou seja, por policiais ligados a inteligência da instituição ou o setor encarregado do tráfico.

Também possuem contatos com as polícias de outros países da América do Sul, que informam sobre a movimentação de determinados indivíduos suspeitos ou procurados. Através desses contatos obtêm subsídios que levam a formar convicção e chegar aos traficantes quando adentram em nosso país. [7]

Outra forma repressão ao tráfico é feita por duas instituições diferentes. A Guarda Portuária, que patrulha apenas no porto, e a Receita Federal, em sua função de agente alfandegária.

A Guarda tem muita atuação na segurança do porto, inclusive no controle do tráfico. Apesar de não constar no artigo 144 da Constituição como polícia, sua função equivale à da PM em outros territórios. Tem exclusividade no trabalho de prevenção criminal no porto, inclusive na área pública. Praticamente em todos os portos importantes há atuação dessa instituição, que é altamente descentralizada. Não responde, pelo que nos foi dito, ao comando de Brasília, mas sim à autoridade portuária de cada local. Apesar disso, segundo os mesmos entrevistados, existe troca de informações entre suas unidades.

Em Santos, num espaço que vai da avenida que margeia a área portuária até o próprio cais, atua em diversas funções, como:

•Patrulhamento preventivo, o que inclui mais de 40 km de vias públicas patrulhados por viaturas, postos fixos e locais de controle. Isso com um efetivo de apenas 265 guardas – pouco mais de 50 por turno.[8]

•Controle do acesso a área restrita, que é exercido apenas por crachá mais motivação. Ou seja, o indivíduo que deseja circular nesse espaço, que compreende o acesso aos navios ancorados, tem de estar lá por algum motivo, algum trabalho autorizado.

•Vigilância através de câmeras e presencial. Em todo o espaço é acompanhado o movimento através de cerca de 200 câmeras.

•Inteligência sobre possíveis delitos na área, o que implica coleta de informações local e cruzamento de dados sobre infrações, indivíduos e mercadorias suspeitas de contaminação.

•Fiscalização sobre embarques e desembarques de cargas que circulam em sua área de atuação.

•Fiscalização das linhas ferroviárias na área do porto.

As únicas áreas em que não atuam são as mantidas pelas empresas de contêineres, onde toda a segurança é privada, e normalmente sem qualquer agente público. Ou seja, são locais nos quais a chance de uma contaminação de um contêiner, especialmente se já tiver passado pelo escâner, é maior. O movimento de TCUs [9] por dia no porto é de cerca de 15000 [10], incluindo exportação e importação. O número elevado significa que é praticamente impossível fiscalizar tudo. Através das câmeras, dos postos de vigilância e do conhecimento da região e de sua clientela, a Guarda acaba por ter uma importância muito grande no enfrentamento ao tráfico.

Um caso emblemático foi o da apreensão de oito sacolas contendo 350 quilos de cocaína em 2015. Naquela ocasião, os guardas receberam uma denúncia que o navio panamenho MSC Krystal teria vindo do porto de Paranaguá, no Paraná, transportando a droga. Utilizando cães farejadores, os guardas portuários descobriram as oito sacolas dentro do navio.

Uma ação recente ocorreu em julho de 2023, quando traficantes passaram muito rapidamente pelo escâner da empresa Brasil Terminal Portuário. O fato foi recebido com estranhamento, e eles foram abordados pelos guardas, que encontraram 119 quilos de cocaína e prenderam os quatro traficantes. Uma ação baseada no conhecimento das atividades normais dos que circulam no porto. [11]

Já a quarta instituição que atua no porto, a Receita Federal, é a que maior quantidade apreende. Ela tem a responsabilidade de verificar toda e qualquer mercadoria que entre no Brasil ou saia dele, de forma a averiguar os ilícitos de contrabando e descaminho, tanto na mercadoria que entra como aquela que deixa o país;

É responsável por muitas das grandes apreensões, várias das quais derivam do ato de escanear um contêiner. Já em outros casos se trata de vasculhar determinada carga selecionada depois da obtenção de alguma informação confidencial.

Como já ocorreram situações de contaminação depois da passagem pelo escâner, se existe suspeita por vezes a Receita repete a operação. E mais raramente é aberto o recipiente para revista visual e são utilizados cães farejadores. Isso é complicado e exige muita mão de obra, portanto só se faz quando a probabilidade de contaminação é grande. No caso de grãos, por exemplo, trata-se de uma operação custosa e demorada [12]. O que se torna ainda mais onerosos quando a carga é congelada, pois existe o risco de não se encontrar nada e, ao mesmo tempo, danificar a carga[13]. Além disso, como disseram entrevistados, é um problema logístico fazer com que tudo caiba de volta quando um contêiner é esvaziado.

Afora esse trabalho quase que automático, a Receita também atua através de uma análise de risco, o que implica um trabalho de inteligência. Nessa atividade, seus agentes verificam não apenas o destino do navio, mas também outros portos onde vai atracar, bem como empresas ou pessoas responsáveis pela mercadoria que possam ser suspeitas. A Receita constantemente se debruça sobre as rotas mais atraentes para o tráfico, o que implica muito trabalho de análise, já que elas têm aumentado constantemente.

Um dos problemas da fiscalização é o controle de parte de suas ações pelos traficantes. Quando as embarcações da PF, Receita ou Guarda saem, eles muitas vezes são monitorados por agentes dos traficantes que passam informação por via telefônica. Esse fato foi comprovado por mensagens encontradas em celulares apreendidos pela PF.

Apesar desse trabalho realizado pelas quatro instituições, o tráfico não para. Como sempre ocorre, os criminosos inovam, encontram outras formas de agir, enquanto o Estado tenta responder a cada uma dessas mudanças. Veremos essa evolução dos meios veremos no próximo artigo.

Referências

[1] A atuação da Civil nesse crime foi explicada por três policiais diferentes, e que atuaram em diferentes casos – dois delegados e um investigador.

[2] Alguns desses informantes eram membros e ex-membros, que estavam “deselegantes” como diziam os criminosos sobre pessoas que agiam fora de seus padrões. Alguns deles eram ressentidos e buscavam prejudicar seus desafetos, outros parentes de membros presos, inclusive mulheres que queriam obter algum privilégio para seus cônjuges.

[3] Prisão de André do Rap - Segurança Portuária em Foco.

[4] Polícia Civil apreende mais de meia tonelada de cocaína no litoral paulista - Todo Dia.

[5] Essa é a versão oficial. Se houve ou não deduragem é uma questão em aberto.

[6] PF mira mergulhadores do PCC em ação contra tráfico pelo Porto dos Santos - Veja.

[7] A Polícia Civil paulista tinha seus contatos, bem mais informais, com polícias de países vizinhos, mas eles foram minguando a partir do momento em que a PF assumiu a tarefa. Atualmente quase todas as relações internacionais são estabelecidas pela PF, que tem essa atribuição legal.

[8] Informação coletada em 2025. A situação pode ter mudado.

[9] Unidade equivalente a um contêiner de 20 pés.

[10] Em abril de 2025.

[11] Homens que transportavam 119 kg de cocaína no Porto de Santos são condenados - A Tribuna.

[12] Uma situação semelhante ocorre quando a Polícia Rodoviária tem que fazer busca num caminhão. É necessário o emprego de muita gente para descarregar e, posteriormente, se nada for encontrado, carregar novamente. Uma carga difícil de lidar, segundo entrevistados, é carvão.

[13] Informação de delegado da PF, bem como de policiais rodoviários de vários estados entrevistados anteriormente.

Autor/Fonte: Carlos Nascimento 

Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br 

          Edição nº338  - 10/09/2026 / Página de Polícia

          

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